Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Sobre o mimo nos bebés

Crónica de 18 / 11 / 2014

Como mulher numa sociedade judaico-cristã, passo parte dos meus dias à procura dos meus erros como mãe. Porque, na nossa sociedade, somos ensinados que mulher é bicho que erra. 

As questões do mimo, colo e sono na cama dos pais, atormentam-me em particular pois a literatura e opiniões são tantas que mais parece que cheguei à Zara no último dia de saldos.

Fico ainda mais afligida quando, ao tentar encetar conversa com algumas pessoas, me garantem com 100% de certeza que demasiado colo, mimo ou viagens e excursões à minha cama, levam peremptoriamente a que a garota, aos 30 anos, use cabelo até aos pés, para poder tapar a sua própria cara, de tão insegura que será.

Agora, apesar de estar meio acéfala desde o momento áureo do meu útero, considero-me ainda uma gaja da ciência e tenho andado a investigar.

O grande argumento por trás da contenção de mimo é o self-soothing, ou a ideia que desde cedo as crianças devem se saber auto-satisfazer ou resolverem os seus próprios problemas, sejam eles medos, sono ou até uma irracional vontade de não estar sozinho.

E a razão porque devem desde cedo saber resolver estas questões sozinhos é que, sugere a nossa sociedade, os suínos, irresponsáveis dos seus pais certamente falharão, mais cedo ou mais tarde, então mais vale arrepiar caminho na auto-suficiência.

Para compensar, esta doutrina oferece uma sociedade democrática onde pautam sistemas de justiça, educação e saúde e nesses sim, um micro-ser, que desde que nasce deve ser registado e ter um número nestes serviços, deve confiar.

Deixem então que vos deixe a minha mais sincera e profissional opinião: ponham as teorias do self-soothing num sítio que eu cá sei mas que adianto que raramente vê a luz do sol.

Porque, que raio de sociedade é esta que procura passar a mensagem que se deve contar com a falha dos pais e com o sucesso de um sistema falhado?!

A minha filha, antes de contar com os sistemas democráticos de educação (Eheheh), justiça (ihihhihihi) ou saúde (Ahahahah) vai contar sempre com o colo, mimo, amor e cuspe (ver crónica da semana passada) da mãe.

E isto sim, falo por experiência própria, será a melhor fonte de self-soothing dela: se um dia sentir que o barco está a afundar, mais do que poder dar palmadinhas nas suas próprias costas, saber que há sempre alguém que a recebe de braços abertos. E com muito cuspo.

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