Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

A amamentação

Crónica de 19 / 11 / 2014

Não amamentei. Quer dizer, amamentei um mês e meio sendo que passado uma semana da Clara nascer introduzi suplemento.

Segundo a natureza humana, as mamas das mulheres, além de servirem para vender tudo desde detergentes a carros, servem para alimentar os seus pequenos bebés.

O que não vende um par de mamas?
Até ser mãe, nunca tinha ouvido – ou prestado atenção – a histórias de mulheres que não querem ou não conseguem amamentar. Eu não consegui amamentar e chorei baba e ranho. Mas ate podia não ter querido amamentar que continuava a não ser pior mãe por isso.

Enquanto ainda tentei amamentar, sentia-me a pior mãe do mundo, uma falhada como mulher, mal acabada de natureza e uma série de outras atrocidades que um cérebro comandado por hormonas pensa.

Ouve-se de tudo nessa altura. Que é uma questão mental. Que deves amamentar de hora a hora. Que produzes o leite necessário. Que deves deixar o pai pegar porque não cheira a leite. Que tens de colar o bebé a ti para aumentar a produção de leite. Que tens de beber chá disto e daquilo. 8 litros de água por dia. Não dormir. Dormir mais. Mudar a criança de posição. Mudares tu de posição. Mudar a luz. A música. Mudar o cérebro porque o que pensas naquela altura por causa do stress… Enfim, uma enciclopédia em vários volumes com instruções completamente contraditórias entre si. Mas leite que é bom nada. Sei disso porque a minha filha não parava de chorar.

E enquanto procuras ajuda, em dolas, centros de apoio, SOS amamentação, e em grupos de Facebook, vês uma séria de mães postarem fotos das suas mamocas com os bebés a mamarem, mamas no café, mamas na rua e mamas em casa, muitas vezes mamas acompanhadas de insultos a quem não amamenta. Mas ainda consegues pensar que apesar de seres uma péssima mãe, não estás assim tão mal da cabeça porque ainda não te apeteceu postar as mamas no Facebook.

Mamas, maminhas e mamocas por todo o lado!
Depois começas a conversar com outras pessoas e a ouvir outras histórias. Histórias de quem escolheu não amamentar. Histórias do tempo da minha bisavó quando alimentavam os filhos com leite dos animais (cabras, vacas, etc) quando a mãe não tinha leite. E começas a pensar: “se calhar não sou a maior anormal do mundo!”

Um dia desisti de amamentar a Clara porque já bebia mais biberão que maminha. Nesse dia, comi o que quis, bebi dois ou três valentes copos de vinho e acordei de 4 em 4 horas em vez de 2 em 2. E senti que me estava a ser devolvida alguma liberdade. E muita sanidade.

Fui ler e investigar e, como tudo na maternidade, a ciência e a caça à bruxa misturam-se. Mas o meu senso comum prevaleceu: o que adianta amamentar um filho, se depois de lhes dá bolicaos e douradinhos? Se não se tem tempo para cozinhar, tirar de frente da TV, ou ajudar a fazer os TPC? Porque será que se trata a amamentação como um golden visa? Fica quem amamenta ilibada de ser boa mãe o resto da vida? Fica quem não amamenta com o selo de “má mãe” para o resto da vida? Ou o melhor para os nossos filhos é algo que temos que dar sempre, o melhor que podemos e sabemos?

Passados uns tempos fui fazer uma caminhada com uma amiga que também tinha sido mãe há pouco tempo. Estava orgulhosa porque não dormia há 9 meses mas conseguia amamentar. Fiquei nesse dia muito feliz pelas minhas escolhas: não consegui amamentar, mas escolhi ficar sã e bem dormida para curtir a minha filha. E a minha vida.

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