Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Co-sleeping: mitos e realidades

Crónica de 26 / 11 / 2014

by Carla Miguel, blog da cor das cerejas

Tenho 41 anos. Durmo há 41 anos. Tenho insónias, tenho noites que nem dou conta de nada, outras que mal o vizinho espirra, abro logo a pestana. Sonho muito, mas não me lembro. Tenho pesadelos e ainda bem que não me lembro. Levanto-me para fazer xixi. Levanto-me para comer. Acordo bem, descansada. Costumo acordar cedo. Costumo deitar-me tarde. Gosto de dormir acompanhada.
Este é o meu padrão de sono. E tenho 41 anos. E quando tinha 3 anos como é que era? Terei sido um bebé daqueles que é só pôr na cama, adormece sozinha e é até de manhã? Não. Pelos vistos, berrava de meia-noite até aos 3 anos…ainda hoje berro, mas acordada.
 
Tenho gémeas, as duas tão diferentes, em tanta coisa. Até no padrão de sono que foi mudando ao longo do tempo. Ser mãe de primeira viagem, é difícil. Então a dobrar, nem vos digo. São o raio das hormonas pós-parto a darem palpites, as avós a darem bitaites, as amigas também e a nossa cabeça e, principalmente, o nosso corpo, a fraquejar e cheio de dúvidas. 

 
Saí da maternidade ao fim de 12 dias com as cachopas a acordarem para comer à hora certa, arrotar, mudar fralda, um bocado de mimo e toca a deitar. Era limpinho. Quando cheguei a casa, as cólicas de uma e o mau-feitio de outra, vieram ao de cima. E o caneco das hormonas e os bitaites também. O mais clássico: não as adormeças ao colo. E o outro igualmente clássico: se as levas para a tua cama, nunca mais de lá saem.

Quantas pessoas cabem numa cama?
 
Mitos. 

 
Uma não era muito fã de adormecer ao colo. Preferia a cama. A outra era completamente fã do colo. E não preferia a cama em altura nenhuma. E lá andava eu, a adormecê-la ao colo, com o peso na consciência a perseguir-me, a pensar que a cachopa nunca iria ser autónoma, que nunca iria sair do meu colo. Até que me borrifei para os bitaites e ela adormecia ao colo, ao meu ombro, e eu também. Ai, sabia tão bem! Depois pensei, qualquer dia quero dar colo à garota e ela vai pedir-me por favor que me esconda na esquina e não a chame alto e bom som ao pé das amigas, e que me deixe de mimices. Portanto: aqui esta senhora mãe deu colo, dá colo e dará colo. Mesmo para adormecer.
As duas são fãs da cama dos pais. Há ali qualquer coisa de muito bom, de reconfortante, de mágico. Eu acho que é a almofada. O pai acha que são as costas dele. Eu acho que é o conforto de estar ao pé dos pais. Ele acha o mesmo. Cá em casa é conforme lhes dá. Quando eram bebés, para eu dormir mais um pouquinho de manhã, deitava-as na minha cama e elas adormeciam mais um pouco. Outra altura, quando uma delas andava resistente ao sono, levava-a para a minha cama para a controlar e ela não desatar a procurar estímulos e desculpas para não dormir: fazia-lhe festinhas na barriga, ou na cara, e ela adormecia. Hoje em dia, vão para a nossa cama quando querem, é logo quando se deitam, é a meio da noite, é só de manhã, é conforme e saem de lá quando querem. 

 
Muita gente diz que o co-sleeping interfere com a vida de casal, com a intimidade. Uhm…pensem lá bem se não arranjam outros bocadinhos para a intimidade…é só querer. Os pais dormem? Umas vezes melhor do que outras. Elas dormem? Sim, em geral sim. Já houve noites em que uma delas, farta de levar braçadas da irmã, saiu da nossa cama toda chateada a dizer que ia para a cama dela. E foi. E adormeceu sozinha. Aliás, elas adormecem sozinhas há muito tempo. Basta estarem calmas e sintonizadas para ir dormir. Basta saberem que vão ter uma sessão de miminhos antes de dormir. E sim, que os pais ficam ali só um bocadinho depois da história. 

Será que ficam para sempre na cama dos pais?
 
Mito desfeito: apesar de adormecerem ao colo em bebés e de às vezes dormirem com os pais, também sabem adormecer sozinhas. 

 
Aos olhos de muita gente, o co-sleeping, é do piorzinho que se pode fazer aos filhos. Aos olhos desta família são momentos de muita ternura. Aos olhos das minhas filhas são momentos em que elas sabem que os pais estão lá. E para quê resistir? Eu tentei, juro que tentei, insisti, conversei, fiz isso tudo. Foi berreiro e choradeira pegada delas, e nervos e insónia pegada minha. Desisti. Quero lá saber, fazemos o que for mais eficaz para toda a gente descansar e conseguir acordar no dia a seguir bem-disposta e sorridente. E há lá coisa melhor no mundo do que acordar com uma festinha da nossa cria a dizer “mamã, já acordaste?”. Ah, esperem, há sim: é acordar e ver as duas agarradas uma à outra ou encostadas ao pai com aquela mão pequenina e fofinha na cara dele.

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