Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

De empresária a mãe a tempo inteiro: um ano depois

Crónica de 21 / 01 / 2015

Há uns tempos, estava eu no supermercado a meio da tarde, quando me cruzo com um grupo de mulheres corporativas que me olharam, do alto dos seus desconfortáveis saltos agulha, com pena.

Por acaso elas não sabem, mas eu já fui uma delas e, portanto, devolvi, arrogantemente, o mesmo olhar: coitadas. Olharam-me com estranheza.
Não sei que teria vestido naquele dia mas era certamente qualquer coisa com 2 dias de uso, muito prático e sapatos rasos. Tapa-olheiras certamente, mas não mais que isso. E espero que não se notasse que provavelmente não tinha tomado banho.
Quando estás em casa com um bebé, estas horas são cruciais: as horas que arranjas maneira de ir à rua fazer qualquer coisa, nem que seja comprar meia folha de alface. 
Mas elas também não sabiam isso, não sabiam que eu estava feliz só por estar com a minha filha na rua. Só por estar na rua.
Passar de empresária a mãe a tempo inteiro não é uma transição fácil. Diria mesmo que nada fácil.Deixas de ter a auto-estima sempre lá em cima, seja porque fechaste um negócio, porque o colega giro do andar de baixo te sorriu no elevador, ou porque simplesmente sabes que não tens um pelo a mais no corpo.

E passas a passar a maior parte do dia sozinha. De ténis quando não de pantufas. E a ter dias que a única cara de adulto que vês é o teu marido à noite, para quem não queres sempre sorrir pois precisas de descarregar a energia acumulada.

Tens muito menos tempo para ti. Vês muito menos pessoas. Tens menos dinheiro. Andas mais despenteada. E acima de tudo: tens de continuar a gostar de ti como se ainda estivesses de saltos, a ser galanteada pela tua elegância, e destaque físico ou intelectual e com ar de boneca feliz. 
Porque sorrio eu então às mulheres que me olharam com desdém? Porque um ano depois, a minha felicidade não vem do dinheiro, que não tenho, mas do amor que tenho no coração. Não vem do que vejo ao espelho, que nem sempre é bonito, mas do que tive de encontrar dentro de mim para continuar a gostar de mim. Não vem de ser de alguma forma superior, intelectual ou hierarquicamente. Porque, muito pelo contrário, a minha vida desmoronou-se nesse sentido. Mas, sem trabalho ou dinheiro, mantive à minha volta quem realmente gosta de mim. Grupo onde me incluo, mesmo de pantufas. 

E isso não tem preço. Nem aparece por magia só porque pões um batom. 


Dona de casa feliz. Será possível?


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