Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Estar vivo é o contrário de estar morto

Crónica de 06 / 02 / 2015

Estava eu a tirar o mestrado de política económica em 2001 (sim, sim, eu já quis mudar o mundo…) quando um professor nos pergunta: 

Se pudessem renascer, gostariam de o fazer? 
Claro que toda a gente disse que sim! Quem não quer mais uma voltinha no maravilhoso carrossel da vida?!
Pois, diz ele. Mas fiquem sabendo que a probalidade de calharem numa vida com um nível sócio-económico idêntico é abaixo de 5%. A grande probalidade, no mundo de hoje, é que renasçam na pobreza. 
Uma das coisas a que temos acesso garantido, mesmo que falhe em tempo de espera, é a saúde: nós sabemos que, a funcionar mal ou bem, temos centros de saúde, hospitais, ambulâncias, seguros de saúde, etc etc.
Isso não é válido sempre. Ou para toda a gente.
As minhas experiências mais intensas, digamos, passaram-se ambas em Moçambique. A segunda foi agora com a Clara. 
A primeira foi em 1999, antes do dito mestrado, quando fui fazer uma Roadtrip  por Moçambique com amigos (por amigos leia-se grupo de malta que conhecia há um mês).
Passados 2 dias, comecei com uns desmaios, febres e alucinações. Sim, eu tive a clássica de chegares a um portão e alguém te dizer que não era a tua hora, um clichet. 
Depois de toda a gente dar o seu bitaite, e eu emborcar 60 comprimidos em 3 dias, lá houve um amigo que achou melhor me levar ao hospital. 
Nas urgências deste hospital, estava uma auxiliar a cantar e lavar louça, medico, nem vê-lo. Deve ter tido uma urgência! Mas eventualmente lá apareceu e salvou-me a vida. Com uma injeção é uma ventoinha (não me vou alongar no porquê da ventoinha que esta crónica já vai longa). 
No meio do nada. No meio de música e pratos lavados. Salvou-me a vida. 
Decorridos 16 anos, aqui estou eu no meio do nada, agora com uma filha. Bem, não é nem no meu do nada. Estou a 20 km de um ferry que me leva à cidade. Numa estrada de picada que demora 1 h sensivelmente. Estou numa vila que se chama Kaelisa. Que, do lado da estrada onde moro, só nós temos electricidade e é há um mês. E não há água potável. 
Mas Kaelisa tem algumas peculiaridades. Tem um soldador que tem uma “sala de cinema”. Leia-se uma TV minúscula que mostra filmes a troco de 2 meticais. Tem escola primária. Tem barraca de cerveja. Tem centro de saúde. 
E foi lá que eu fui parar com a Clara nestes dias que ela adoeceu. Porque podia ter viajado uma hora e ir para a grande cidade. Mas lembrei-me de 1999. E do mestrado  de 2001 (vêm como tudo o que eu digo tem uma razão de ser? :p)
O centro de saúde de Kaelisa é um mimo. Fomos vistas, auscultadas, vistas e medicadas com todo o rigor. 
E para acabar em beleza, porque isto são as crónicas da maternidade, até uma “maternidade” existe. 
Como diria a outra, para morrer é preciso estar vivo. 

Mas, felizmente,  para estar vivo, e com alguma saúde, não é preciso pertencer ao 1% dos ricos. Nem aos 5% de classe média. 

Só não me peçam para ir a uma sessão de cinema em Kaelisa :) 


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