Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2018

Nómada lamechas

Crónica de 18 / 02 / 2015

Até aos dias de hoje, eu mudei, aproximadamente, 20 vezes de casa, e umas 6 de país. 
Como qualquer mulher que se preze, eu já amealhei algumas peças, recuerdos e outras tralhas de maior ou menor porte. Davam-me a sensação de pertença, da casa que acabava por não ter. 
Mas quando em 2007 mudei 4 vezes de casa, e 1 de país, mudei a minha relação com os objectos: se sou eu que tenho de os encaixotar e desencaixotar, acartar e limpar, quero lá saber deles! Fico só com a memória deles! 
O ano passado, quando eu e o M aceleramos o juntar dos trapos devido à chegada da nossa piolha, decidimos juntar trapos na casa dele, facilmente maior que o meu T1. 
A casa do M não é a típica casa de gajo, ou o que se imagina que seja a casa de um homem: vazia! Não! A casa do M tem móveis, moveizinhos, quadros, pedras e pedrinhas e mais utensílios de cozinha do que eu tinha alguma vez visto, a não ser talvez na casa da minha avó. E por isso, nem os poucos tarecos que sobravam no T1 puderem ir para a casa nova

E esta foi a gota de água: eu, cheia de hormonas, a chorar baba e ranho na casa do M no dia que me mudei para lá porque ele não gostava da sereia de madeira que eu trouxe do México! (Que tenho de vos apresentar para verem se não é linda!)
Mas num ano onde perdi tanta coisa, este foi apenas mais um passo na certeza que eu sou e gosto de ser nómada. 

É que, na ausência de objectos, o que fica é o que importa: ficamos nós próprios e é conosco que temos de viver. O que pode nem sempre ser fácil 😉
Hoje em dia, sei que mudar de casa ou de país é fácil, e até exequível com uma criança “às costas” (enquanto eu vejo o M ficar doente só com a hipótese de termos de mudar de casa :))

Mas aqui estou eu, depois de 2 meses em Moçambique, por um lado cheia de vontade de me enfiar num cabeleireiro no Chiado, por outro já cheia de saudades de cá estar.  Onde oiço pássaros e ondas do mar todo o dia. Onde a Clara começou a andar e a comer maracujá e a correr atrás das lagartixas. Onde tenho fotos minhas de criança, os meus primeiros peluches e, no fundo, mais uma casa de família, com objectos que mais uma vez não levarei comigo. Apesar de levar uma bagagem infinita de memórias.
Porque eu sou nómada. Mas sou uma nómada lamechas. 
Eu não me pego aos objectos. Mas não me desapego das memórias dos sítios. Nem das pessoas. Dos cheiros, temperaturas ou sabores. 
E desses sim, tenho uma bagagem infinitamente difícil de carregar. 
Ao que somo 11 kg de filha, também cada vez mais difíceis de “carregar” 😉

Mais Crónicas:

-->