Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

360 graus

Crónica de 25 / 03 / 2015

Costuma dizer-se “A minha vida deu uma volta de 360 graus”.

Ouvi e usei várias vezes.

Depois chegou a fase pseudo-intelectual. Onde passei a dar primazia à exactidão: 360 graus são voltar ao mesmo sitio, não é aquilo que se procura dizer com a frase de senso comum.

Ah, mas o senso comum não se engana. Porque não há como voltar ao mesmo local onde já se esteve igual.

Ficamos grávidas, deixamos de estar. O nosso corpo volta ao mesmo? Não. Foi um corpo que ganhou e deu vida. Não volta a ser o mesmo.

Amamentamos, deixamos de amamentar. As nossas mamas voltam a ser as mesmas? Não. Foram mamas que alimentaram a sobrevivência dos seres que mais amamos. Nunca mais são só mamas.

Amamos, desamamos, separamo-nos. Voltamos a ser solteiros? Não. Perdemos um pouco de nós nas pessoas que amámos. Não recomeçamos tão crentes, apesar de recomeçarmos sempre.

Alguém próximo tem um cancro. Alguém se cura. Voltamos a olhar da mesma maneira para essa pessoa? Nunca. Saboreámos o medo de a perder. E ele nunca nos largará.

Ao dia segue-se a noite e à noite segue-se o dia. Mas sabemos bem que nenhuma noite ou dia voltarão a ser os mesmos depois de sermos mães.

Um casal passa a ser um casal mais um depois de uma criança nascer. E nunca nada volta a ser igual.

Não voltamos a olhar os nossos pais e mães da mesma forma depois de sermos pais.

E de um ano para o outro a roupa que vestíamos na primavera deixa de nos servir.

Por isso sabem que mais? A minha vida deu, sim, uma volta de 360 graus. E ainda bem que o deu. À moda antiga. Quando queria dizer que voltas ao mesmo sitio. Completamente transformadas.

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