Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Mas tu não vais à escola?

Crónica de 27 / 04 / 2015

E todos os dias é a mesma coisa!

 Mas tu não vais à escola? 
Todos os dias alguém faz algum tipo de comentário sobre o futuro da educação da minha filha. Todos os dias alguém mete o bedelho onde não é chamado. Todos os dias temos de nos justificar pelo facto de que vamos brincar no parque às segundas de manhã (e às terças e quartas…), enquanto ela deveria de estar na escola como todas as outras crianças da idade dela. Todos os dias somos olhados de lado quando dizemos que ela não vai à escola (mas segundo eles, devia de ir).
A mim arrelia-me muitas vezes. A ela faz-lhe sorrir e responder serenamente “não, não vou à escola, estou a fazer uma viagem”.
– Já tens 5 anos, este ano entras na escolinha! Que bom ah!?!
Enche-me o peito de orgulho, e logo a seguir de ansiedade. Será que tomei a decisão certa quando a inscrevi no regime de ensino doméstico o ano passado em Setembro (na Inglaterra, onde vivíamos, ela teria começado a escola nesssa altura)? Será que é sensato não lhe dar a oportunidade de experimentar a “escolinha”? Mas que raio de mãe sou eu?
– É bom ir à escola para aprenderes coisas novas Gabriela, quem não vai à escola não aprende a ler nem a escrever.
 
Mas depois  vejo-a toda entusiasmada a contar à avó paterna, durante um skype call, que “descobriu” que os rios nascem nas montanhas e que morrem nos oceanos. Oiço o seu ensaio sobre “experiência” e “pensamento” numa tentiva de explicar ao pai que se pode escolher comportar-se bem ou comportar-se mal, que não acontece por acaso. Observo-a a brincar com pinhas e a usá-las para entender a matemática do mundo que a  rodeia. Surpreendo-me com ela a juntar as letras e a tentar ler as instruções de um livro de colorir. “Apanho-a” a fazer uma boneca com uma garrafa de plástico vazia e a pedir-me um saco para apanhar o lixo que outro alguém deixou na praia. Vejo-a a pintar as flores que apanha nos campos e a cantar as canções que ouve nos filmes. Sinto o abraço dela de arrependimento depois de ter feito o maior drama de todos. E veojo-a bater o pé quando acha que tem toda a razão. Vejo que em 3 meses aprendeu a falar o Português com tanta confiança, ao ponto de ser entrevistada em directo num programa de TV, e responder às perguntas como uma “crescida”. Nem eu teria sido capaz!
– Olha que fazia-te bem ires à escola. Aprendias a brincar com outras crianças e a partilhar.
 
Ela gosta de aprender. Ela é curiosa. Ela comove-se com as tristezas dos outros. Ela sente-se feliz em ajudar. Ela carrega bondade no coração. Ela quer saber tudo sobre este mundo. Ela ri e chora e faz birras e pede desculpas. Ela faz amigos com facilidade. Eu quero que ela continue assim.
 – Mas tu não vais mesmo à escola Gaby?
 
O ensino doméstico é um direito adquirido. Não há nada de estranho nem de complicado com o mesmo. É uma opção. Concordo que não seja a melhor opção para todas as famílias e muito menos para todas as crianças, mas é uma opção válida e que tem de ser respeitada.
 A Gabriela não vai à escola!
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