Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Escrever direito por linhas tortas

Crónica de 24 / 05 / 2015

Decorreu, este fim-de-semana, um festival em Maputo ao qual várias pessoas me perguntaram se eu ia.

Até o M. – que só não apanha um barco a remos para vir ver a Clara porque não chegava cá a tempo – me falou de uma banda genial que vinha cá.

Porque me perguntaram as pessoas se eu ia? Porque, antes de ser mãe, eu ia a tudo que acontecia depois das 23.

Queria eu ir? Sim. Muito.

Porquê? Porque, às vezes, muito raramente, tenho saudades de poder beber um copo a mais, dançar de olhos fechados, e acordar, ressacada e ficar a vegetar em silêncio à frente da televisão.

Fui ao festival? Não. 

Porquê? Porquê de alguma forma senti que não ia ganhar nada com isso (além da ressaca, claro…) e porque achei que este momento da minha vida é sobre ela, e não sobre mim. 

E o que aconteceu por ter ficado em casa mais uma vez, como todas as outras?

Fui nadar ontem com a Clara às 8 AM. Éramos as únicas na praia, além de uns pescadores. O céu e o mar estavam ambos prata, e então uniam-se, na mesma cor, no horizonte. 

Quando saímos do mar, ela percebeu que tinha sombra e começou a dançar com a sombra dela. Juntei-me e ficamos ambas a dançar.

Hoje, depois do almoço, ela não queria dormir. Então deitamo-nos as duas na rede de baloiço e, a ouvir o mar, dormimos uma hora abraçadas.

Acredito que o festival tenha sido bom. E eu continuo a ter vontade de um dia destes ressacar em silêncio à frente da TV.

Até lá, é bom saber que, às vezes, a vida escreve direito por linhas tortas.

E é melhor ainda saber que, outras vezes, somos nós próprios a escrever esses textos. 

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