Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Socorro! Vou matricular o meu filho!

Crónica de 02 / 06 / 2015

Foram sete folhas onde tive que escrever OITO vezes o meu nome, DEZ a minha morada e SEIS o meu número de telemóvel. Pelo menos agora sei que não se atrasarão a chamar-me à escola caso ele parta a cabeça. Ou caso lhe partam a cabeça… E perante esta ideia recomeçam as palpitações nervosas. Abrandam cada vez que tenho que copiar os números do cartão de cidadão, identificação fiscal e da segurança social de toda a família, mas voltam novamente quando me deparo com a folha de “Inscrição no Serviço de Alimentação em Refeitório Escolar”.

Refeitório escolar?!!!!

Na minha mente surge automaticamente a imagem de uma fila de crianças a carregarem os seus tabuleiros, a procurarem um lugar para se sentar, a não encontrarem lugar, a deixarem cair os tabuleiros no chão, dá-se início a uma guerra de comida, há esparguete a voar sobre as cabeças, ele começa a sentir-se perdido, contém a vontade de chorar, os miúdos da quarta classe roubam-lhe a sobremesa, ele começa a chorar… Eu sei, eu sei. Se houvesse uma guerra de comida ele fartava-se de rir e ia andar a falar nisso um mês inteiro. Também não devia subestimá-lo. Ele já me surpreendeu tantas vezes! “E tu sabes lá como é que vai ser? A primária já não é como no teu tempo!” – dizem-me. Pois, mas no meu tempo, eu ia almoçar a casa da minha avó! A minha escola nem refeitório tinha! “As coisas agora são diferentes, e ele tem lá auxiliares para olharem por ele…”. Olhar por ele, é dar-lhe um abraço quando ele precisar? Consolá-lo quando esfolar o queixo no chão? E é ajudá-lo a comer? Porque ele esquece-se de comer. Precisa de uma ajuda… Mau hábito, eu sei, mas tem apenas cinco anos! Focar o prato e comer uma refeição inteira de seguida é enfadonho quando há tantas coisas interessantes no mundo que nos roubam a atenção – ou pelo menos é assim que ele pensa.

Depois de escrever o meu e-mail pela quarta vez, deparo-me com a folha de “Actividades de Enriquecimento Curricular”. Enriquecimento curricular?! Então no primeiro de ano de escolaridade da criança, não lhe basta aprender o “b a ba” básico? A sociedade espera que ele despenda mais horas a absorver conhecimento, sentado à secretária? E se eu não for nessa? E se eu, ao enriquecimento curricular, preferir o enriquecimento pessoal? Aquele que ganhamos com as coisas que adoramos fazer? Com o tempo que é só nosso? Aquele tempo em que ele chega a casa e me conta como foi o dia, em que come bolachas enquanto vê desenhos animados, em que brinca e mata saudades dos seus dinossauros que tanto adora, ou quando vai tomar banho e enche a banheira com a frota dos temíveis corsários das Caraíbas, naquele bocadinho antes do jantar. Aos cinco anos de idade, isso é que é enriquecimento curricular! “Inscreve-o! Vais ver que é bom. E depois logo vês se queres continuar ou não”, aconselham-me e eu sigo, reticente. A sociedade exige que se valorize a carga curricular… Lembro-me então do artigo que li sobre a menina que não vai à escola, mas que aprende coisas novas sempre que conhece lugares, costumes e pessoas diferentes. A rotina dela é a novidade e a aventura. A sua aprendizagem, é feita no local e com base na experiência e na observação, e tenho a certeza que não precisa queimar as pestanas com trabalhos de casa diários para interiorizar o que aprendeu. É certo que por aqui, a nossa rotina será conforme “a norma”, mas enquanto preenchia este formulário, foi impossível não me lembrar dos Pais com P grande e do quanto admiro a liberdade em que escolheram viver.

Então e depois dos trabalhos de casa, será que ainda vamos ter tempo e paciência para uma história antes de dormir? Por favor, digam-me que sim. Digam-me que haverá tempo para as histórias e brincadeiras e que não vamos ser consumidos por exercícios intermináveis que roubam o tempo de qualidade em família! “Oh… claro que continuará a haver tempo para tudo isso…”, garante-me uma amiga, sem qualquer convicção no olhar. Não estou convencida, mas suspiro de resignação e decido arquivar a preocupação para mais tarde. Até Setembro, temos tempo para umas lições de voo fora do ninho que o prepararão para enfrentar o que aí vem. E é com base nisso que reafirmo que não sou mãe galinha. As galinhas não voam! :)

Conformada, colo a fotografia do pirata na primeira folha e fico a olhar para ela com um sorriso lamechas de mãe. Um sorriso tão grande quanto o nó que sinto na garganta.

Marta A.

Um Dia Acabo o Livro 

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