Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Com Jesus entranhado até à medula

Crónica de 23 / 06 / 2015

Nasceu numa aldeia fria, pobre e rígida. Junto à Serra da Estrela. Com Jesus entranhado até à medula, apreendia-se a si e ao mundo. Branco ou preto. Bom ou mau. Certo ou errado. Mas era alegre.

Casou-se como era suposto. Apenas porque lhe apareceu um homem sério, jeitoso e trabalhador. Ele metia-se com ela na surra, na brincadeira e ela agradecia a Deus a atenção penetrante que tinha pela primeira vez.

Foi um frémito na vidinha e no ventre, que assentava lindamente na geografia do que lhe era possível desejar.

Amou, teve filhos e a vida rotineira era quanto bastava. Ser mulher casada é de respeito, pensava para si. Até o sexo, passados anos, era tarefa que apreciava. Ainda que sempre vestida de vergonha e estranheza, dele retirava algum quentinho que o proibido, o pecado e o escondido no silêncio atiçam, como se a natureza em nós desaguasse sem represas.

Ia à missa, religiosamente.
Era mulher do seu marido!
Era mãe cuidadora.

De repente, a doença do marido avisou-a da morte. Aconteceu passar a viver com um homem doente. Deus dá mas também tira. E ela retirou-se de si, infinitamente. Submeteu-se ao seu novo papel. Mas não faz mal, filho de deus não se queixa. Resigna-se.

O seu lugar era obviamente onde os outros precisavam que fosse.

A doença foi surpreendida por um acidente e ela ficou viúva. A morte, a acontecer em câmara lenta à frente dos seus olhos. Durante 30 anos fez o “luto” do marido. E passou a ter um novo lugar – de viúva. Viúva, avó e mãe. Mas uma morte assim, à frente dos olhos, deixa marcas. Ficou sem identidade mas passou a ter ataques de pânico. Coisa que nunca soube explicar.

Arrumou-se, com a ajuda dos filhos, numa prateleira, imobilizada. E aí se deixou ficar, vulnerável, fechada. Sem sentido. Viva só para deus e para os outros. “A pessoa deve resignar-se não é?”

Fazia o seu papel na paróquia, agora mais activo socialmente, que há muito desgraçado que precisa de algum conforto, dizia enquanto se tapava cada vez mais com o negro da roupa.

Mas a paz da vida é sempre aparente. Morre uma prima sua e o primo fica viúvo. Calha num almoço de domingo depois da missa, um olhar, um toque ligeiro no braço. Um arrepio pela espinha. Coração acelerado. Tudo deixa de ter importância ao seu redor, só os olhos que a olharam e aquilo que ela sentiu. Voltou a sentir, sem medo. Sentiu o seu corpo, para o qual não olhava há anos a fio. Agora mais encarquilhado mas vivo.

Uma alegria juvenil cerca-lhe o coração. É possível amar aos setenta!?

Deixou as roupas de velha, pintou o cabelo e as unhas (até as dos pés), manda mensagens de amor no facebook ao primo transformado em homem, em amor. Solta risinhos sozinha e abraça os netos com redobrada ternura. E todos à sua volta acham que está louca.

O amor a Deus é sempre mais fraco que este, terreno e carnal, ansioso de contacto e de fusão.

E os filhos? E a aldeia?

By Carla Valério

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