Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

1 ano e 1 semana

Crónica de 02 / 07 / 2015

(Parte 1/3)

Era mãe há 4 meses e todos os dias sentia que vivia algo novo nessa grande aventura que é a maternidade. Gozava cada muda de fralda, cada hora do banho, cada risada, careta ou som novo que ele fazia. E curiosamente, apesar de ter um bebé à minha responsabilidade 24h por dia, sentia-me livre como não me sentira nos últimos meses. Recuperara a minha agilidade, voltara a conseguir tocar nos pés, a baixar-me com graciosidade, a poder fazer todos os esforços e mudanças loucas em casa que não tive oportunidade de fazer por nos termos mudado durante a gravidez, e era maravilhoso voltar a ser leve (ou tentar voltar a sê-lo, pelo menos) e a caber nos meus jeans.

Durante algum tempo também fui acompanhada pela estranha e libertadora sensação de alívio pós parto. É que o do meu filho foi tão doloroso, sofrido e avassalador, que nas semanas seguintes dava por mim a suspirar de contentamento por tudo já ter acabado, por sentir cada vez menos dores, e abominando qualquer recordação que envolvesse o ambiente hospitalar, à excepção daquela em que recebera o meu filho nos meus braços, pela primeira vez. Sim, eu sei… O que são dois dias de sofrimento físico atroz comparado com a felicidade de se ser mãe, não é? Mas para mim, “dores paridas, dores esquecidas” não foi tão verdade quanto dizem, e tão cedo não me imaginava noutra situação daquelas.

Agora só queria gozar o meu bebé. Estar com ele, mostrar-lhe a vida, e entregar-me à aprendizagem diária de ser mãe.

Até que na semana em que o meu filho se iniciava na sopa – mais uma experiência entusiasmante para dois jovens pais que viviam tudo tão intensamente – percebi que algo não estava bem comigo. Andava extremamente sensível, sentia-me mais cansada que o habitual, e o cheiro… aquele que conhecia tão bem, aquele que odiava, que me dava nauseas, e que só sentira numa determinada altura da minha vida, voltara. Desconfiava até que ele não existia, de facto, pois mais ninguém o sentia ou se repugnava com ele, como eu.

Nessa noite, guardando a angústia e a desconfiança só para mim, vi a madrugada passar a uma lentidão desesperante, sem nunca me entregar ao sono.

Na manhã seguinte vesti a primeira coisa que me veio à mão, despachei o bebé, e dirigi-me à farmácia mais próxima.

Para meu embaraço crescente, tive que recorrer à funcionária.

– Um teste de gravidez, por favor.

Ela deu-mo, não sem antes olhar para o bebé sentado no carrinho, e depois novamente para mim, com uma expressão de quem pensa “A sério?!”.

Em casa, sozinha com um bebé que precisava de mim tranquila e centrada, sentia-me à beira de um colapso nervoso. Andei várias vezes para trás e para a frente, entre a cozinha e a sala, roendo as unhas e mentaliando-me que aquilo era só cansaço e nada mais, e que no fim ainda me ia arrepender de não ter guardado o dinheiro do teste para comprar antes pacotes de toalhitas, que essas, nunca eram de mais. Olhei para o invólucro do “tira teimas”, respirei fundo procurando a coragem que precisava, e num ápice, rasguei-o. Não havia espaço para mais hesitações.

Não foi preciso esperar o tempo recomendado nas instruções. Os dois risquinhos vermelhos apareceram quase imediatamente no visor, e o meu mundo, desabou.

by Marta A., Um dia Acabo o Livro

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