Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

A vida com quatro pintos

Crónica de 03 / 07 / 2015

Conheci o pai dos pintos tinha eu 18 anos, também ele os tinha. Não foi amor à primeira vista, mas à segunda vistas a faísca deu-se. Na faculdade era frequente casais amigos falarem dos filhos que queriam ter, da idade com que queriam casar, de mil e um projectos de vidas a dois.

Confesso que nós nunca fizemos projectos, nunca falamos em casar e muito menos em ter filhos. Simplesmente não fazíamos planos, a vida ia fluindo, simples como o ar. E os filhos, os tantos filhos que dizem que temos, foram aparecendo.

A primeira apareceu inesperadamente, apanhou-nos de susto ainda a meio do estágio de advocacia de ambos. Não estávamos à espera de tal acontecimentos nas nossas vidas, confesso que chorei baba e ranho quando o teste deu positivo.

Depois os gémeos. A notícia como é óbvio apanhou-nos despercebidos. Estava a tratar das mudanças para a nossa primeira casa, quando um pequeno susto me fez ir ao hospital. Assim que a médica colocou o ecógrafo começou a fazer uma cara estranha, andou, andou, a ver, piscava os olhos, e eu já estava mais do que assustada, até que ela me pergunta – o que andava a fazer? E eu lhe respondo: estava a mudar de casa. E ela só me diz – é bom que a casa seja grande porque são gêmeos! Ainda não consigo perceber porque é que não fiquei assustada. Ok o susto foi quando soube que eram dois rapazes.

A gravidez de gémeos, para alguém com 1.50m de altura, não é nenhum petisco. A partir das 20 semanas não há posição de sentar, nem de deitar, de absolutamente nada. O estomago está tão apertado que se perde o apetite, e queremos que todas as cadeiras tenham uma sanita acoplada. A partir das 35 semanas o repouso, a ver se os aguentava mais um bocado. Repouso…. mas o médico não falou nada sobre ir para a discoteca na véspera do dia da mulher, nem sobre dançar o barrigão, que quando me sentava chegava aos joelhos….

Não o médico não falou sobre nada disso, por isso lá fui eu feliz e contente para aquele que havia de ser a minha última saída do dia da mulher! Assim que cheguei a casa, às três da manhã, o resultado foi uma poça de água no meio do chão, acordei o marido que desmaiou, tive de chamar a sogra para vir tomar conta do filho da neta e arranjar alguém que me levasse ao hospital! Olhar para aqueles dois bebés, tão pequeninos, nem o tamanho zero lhes servia, tanta dobra na roupa que era preciso fazer…

As outras mães da maternidade diziam-se cansadas, mas eu, eu estava plana de felicidade, a desfilar com os meus bebés, amamentava os dois ao mesmo tempo, mudava fralda, vestia, despia, dava banho, eu estava tão feliz com os meus meninos, com os meus homens, com a minha outra menina tão linda, com nome de fadista, toda eu era orgulho, felicidade, parecia tudo tão perfeito!

Aos 19 dias de vida deles, o pior dia das nossas vidas, um deles não aumentava de peso, tinha vindo a perder sempre peso desde o dia em que nasceu. Algo se passava, até que entrou em coma, resultado de uma septicemia generalizada…

Fizeram manobras de reanimação, obrigaram-me a sair da sala, não me deixaram ver o que foi preciso fazer para o salvar. Tive tanto medo naquele dia, naquela hora. Seguiram-se 15 dias de internamento, sem se saber o que se passava com ele. Só aos seis meses soube que um problema renal grave o tinha afectado.

Fez a primeira cirurgia aos 8 meses e a segunda aos cinco anos para tirar o rim. Foi este susto, este medo, talvez o pensar que teria feito algo de errado, que me levou a ter vontade de engravidar de novo, e logo de seguida. E assim apareceu a nossa pequenita. A princesa da casa. E de repente, sou mãe de quatro filhos, assim, puff,… sem pensar no assunto.

O resto fica para a próxima crónica.

by Cristina Miranda Bessa

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