Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

1 ano e 1 semana (parte 2)

Crónica de 05 / 07 / 2015

(Parte 2/3)

Esquecida de como se respirava, sentei-me no chão da casa de banho, não querendo acreditar que aquilo me estava a acontecer e desejando profundamente ter visto mal o resultado. Ia fechar os olhos, contar até três, e quando os voltasse a abrir, constataria que o teste dava negativo. Mas quando os abri, os dois riscos vermelhos continuavam lá, bem garridos, esfregando-me a realidade na cara.

Da última vez que fizera um teste daqueles, chorara de emoção e felicidade. Agora sentia-me submergir não só num desespero sufocante como também em culpa. Culpa por não ter sido mais responsável, mais prudente, contido mais a líbido como tantas outras recém-mamãs, mas sobretudo, por me sentir tão miserável perante um resultado positivo.

Foi nesse desespero que liguei para a minha guru de todos os momentos: a minha mãe.

Assim que lhe abri a porta, desabei num pranto que a deixou em pânico por não saber ainda do que se tratava. E então, no meio de lágrimas e soluços, como uma miúda que acabou de fazer uma grande asneira e está cheia de receio em confessá-la, lá balbuciei a medo um “estou grávida”.

Inicialmente, vi o choque no seu rosto. Depois veio a descompustura inevitável do “mas em que é que vocês estavam a pensar?!” e depois o consolo. O “tudo se há-de resolver, estamos aqui para te apoiar. Sabes como se costuma dizer… onde comem três, comem quatro.”

Eu, só chorava, desolada, irracional, e em completa negação, dizendo que naquele momento da minha vida só queria ser mãe do meu bebé. Só daquele, que estava a brincar na cadeirinha, que ainda agora chegara ao mundo e que precisava da minha máxima disponibilidade e atenção. Não convidara mais ninguém para a festa! Não estava preparada para reviver tudo outra vez! Nem queria! O meu corpo estava ainda a recuperar da gravidez, e só de pensar num novo parto, quando ainda nem esquecera as dores do primeiro… sentia o chão abrir-se e a engolir-me. Não ia aguentar passar por tudo outra vez! Não ia! Ouvia a minha mãe dizer-me que era normal estar assim, que estava em choque, que teria tempo de digerir a ideia… Mas a única ideia que me passava pela cabeça (parva, eu sei) era que tinha falhado com o meu filho. Não havia nada mais importante que ele. Nada! Contudo, eu acabara de me colocar numa situação que desviava parte da atenção que lhe queria dedicar. A ele, e só a ele.

Ao fim do dia, foi a vez de contar ao outro responsável pela situação, que permanecia ainda em total ignorância.

Estava sentada no chão a brincar com o bebé, quando ele chegou e se deitou-se no soalho, ao nosso lado. Assim que olhou para mim, detectou a tempestade no ar.

Quando, com ar de caso, lhe disse que tinha ido à farmácia, ele ergueu uma sobrancelha, preocupado. Quando lhe disse que tinha sido para comprar um teste de gravidez, empalideceu. E quando por fim lhe contei qual tinha sido o resultado, deixou de respirar, olhando para mim, boquiaberto..

– Estás a gozar! – arriscou, com um sorriso forçado a esconder o pânico.

– Achas que eu ia gozar com uma coisa destas? Olha só para a minha cara!

E ele olhou. E viu nela a resposta, com toda a clareza.

– É a sério?

– É!

– Mas… nós tivemos cuidado!

– Não, não tivemos. – retorqui, sem paciência para a curta memória masculina e habitual indagação “mas como é que foi que isso aconteceu?!”, como se se tivessem esquecido que foram parte activa na coisa.

Nós não tínhamos tido cuidados suficientes. Talvez por acharmos que as probabilidades de acontecer quase imediatamente após uma gravidez eram não só reduzidas como descabidas (tão ingénuos, coitadinhos!) E agora havia que lidar com isso. E era certo que não nos livraríamos de ouvir coisas como “Seus grandas malucos! Não perderam tempo!”, “O vosso Dezembro é sempre uma animação!”, “Não te sentes preparada, mas para o fazeres não pensaste duas vezes”, e toda uma quantidade de observações jocosas que fazem toda a gente rir-se, menos os visados.

Durante um momento ficamos calados. Quietos. Atarantados. Como se tivessemos sido atingidos por uma bigorna. Mais ele do que eu, neste momento.

– Não sei o que fazer… – murmurei, enterrando o rosto nos joelhos e recomeçando a choradeira.

– Como assim, não sabes o que fazer?

– Eu não sei se quero isto. Eu… não estava preparada para ter outro bebé. Não agora! Eu já tenho um bebé. O nosso e…

– Esse também é nosso. – interrompeu-me, provocando-me um qualquer abalo interior. – Olha para ele. – e olhou para o nosso filho, com uma ternura imensa no olhar. – Consegues imaginar como seria, se não o tivessemos agora aqui, connosco? Se ele não tivesse nascido? Se os nosso medos mais terríveis se tivessem concretizado, durante a gravidez… Consegues imaginar o quão horrível isso seria?

Só a ideia me fez estremecer.

– O que te faz pensar que agora será diferente? – perguntou – O que tens aí, é um irmão ou uma irmãzinha dele… E vai ser assim, parecido. Não sabemos se com outra cor de olhos, se com outro tipo de cabelo, se mais comilão ou mais risonho… Mas de qualquer forma… é nosso.

Diante daquilo, tudo mudou. A ideia não deixou de ser assustadora, mas ganhou uma nova perspectiva.

– E se for preciso, faço turnos extraordinários, trabalho mais horas… E tudo se há-de resolver. – sorriu-me com confiança. – Olha para ele! – e voltou a olhar para o nosso filho que palrava alegremente no seu tapete de cores. – Temos jeito para a coisa. Se nos saímos tão bem com o primeiro, imagina só o segundo! – brincou, conseguindo finalmente arrancar-me um sorriso no meio das lágrimas.

– Tu não estás nem um bocadinho amedrontado? – perguntei-lhe, incrédula com a sua certeza.

Pensativo, franziu o sobrolho e anui com a cabeça, convictamente.

– Estou todo acagaçado. Mas estamos juntos, por isso só pode correr bem.

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