Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

1 ano e 1 semana (parte 3)

Crónica de 06 / 07 / 2015

(Parte 3/3)

Se na primeira vez pude dar-me ao luxo de ser uma grávida mimada e dengosa que vivia só para a minha barriguinha em crescimento, ocupando-me de questões (nem de tão grande importância assim) como o enxoval do bebé, o quarto do bebé, as mil e uma leituras sobre o bebé, agora a coisa mudara completamente de figura. Agora era uma grávida experiente, com vários artigos de puericultura em stock, e com francas aspirações a super-mãe. Afinal, não havia cá tempo para enjoos, ataques de soneira, mudanças repentinas de humor e caprichos de gestante. Tinha um bebé de colo para cuidar, outro a crescer dentro de mim, e se é verdade que houve alturas de grande cansaço em que pensava para mim mesma “Como é que vou aguentar isto?”, outras havia em que me sentia verdadeiramente invencível e capaz de tudo, dotada dos super poderes providenciados pela maternidade, claro está!

Foi também, durante a minha segunda gravidez, que senti como nunca o que era ser alvo de preconceito e da mexeriquice alheia. Não podia ir a lado nenhum com o meu filho e com a “senhora barriga” sem que fosse alvo de olhares de pena ou de recriminação. Sim, porque ter filhos uns atrás dos outros, é chiquérrimo, mas só se fores princesa! Quando não pertences a nenhuma casa real europeia, és só uma “caça abonos faz filhos ao desbarato”! Pior! No meu caso, acho mesmo que chegaram a olhar para mim como mãe adolescente irresponsável. E foi assim que as enfermeiras me trataram quando uma vez me dirigi ao centro de saúde para vacinar o meu bebé, e viram que estava à espera do segundo. Quando lhes disse que tinha 26 anos, lá fizeram o favor de mudar de registo, mas o julgamento antecipado e indevido já tinha sido feito. E em momento algum pensaram na possibilidade daquela gravidez, mesmo que prematura, ter sido desejada e planeada pelo casal. Como se elas fossem donas e senhoras do planeamento familiar alheio. Ora essa! “É porque tens esse ar de miúda!” – diziam-me os meus, várias vezes, tentando atenuar o meu melindre.  Felizmente, com o tempo, fui aprendendo a ignorar os olhares e os julgamentos. E se inicialmente me abraçava à barriga, como que tentando protegê-la da mesquinhez do mundo, depois comecei a exibi-la com orgulho, sentindo-me cada vez mais próxima do bebé que estava por chegar. O “sem aviso”, como lhe chamávamos na brincadeira, uma vez que ainda não sabíamos o sexo.

Em Abril, recebi a melhor prenda de anos que podia ter. Lembro-me de ter dado uma sonora gargalhada na sala de ecografias e que as traiçoeiras lágrimas teimaram em chegar-me aos olhos.

– É uma menina! – disse o médico. – E está a chuchar no dedo. Está a ver?

Claro que via! Eu via tudo, mesmo que não conseguisse distinguir nada. Aquela linda e maravilhosa manchinha com fluxo sanguíneo e um coração pulsante, no ecrã do ecógrafo, era a minha filha, e não havia felicidade maior do que sabê-lo. Claro que depois disso, choveram vestidinhos e lacinhos cor-de-rosa, houve paredes pintadas de lilás e compraram-se luminárias em forma de flor.

No equinócio de Outono, precisamente uma semana depois do primeiro aniversário do irmão, ela decidiu nascer. E não cometi os mesmos erros da primeira vez. Quando soube que chegara o momento, continuei a passar a ferro, nas calmas. Arrumei a mochila do mais velho para ir para casa dos avós. Subi e desci várias vezes as escadas de casa, e ainda fui comprar um croissant de chocolate, a pé, o qual me soube pela vida.

No Hospital, também não deixei que me enclausurassem numa cama com um CTG na barriga. Já passara por isso e tinha tido a pior noite da minha vida. Desta vez, ia ser à minha maneira e ao meu ritmo. Por isso fui passear para o parque de estacionamento do Hospital, debaixo de uma enorme e luminosa lua cheia, onde entre inspirações e expirações, iamos falando e rindo um com o outro. Ele distraía-me com parvoíces, e eu, ora me ia rindo, ora lhe ia esmagando a mão paciente, sentindo-me tão expectante quanto aterrorizada.

Às 3h da manhã estava a beber chá de maçã e canela com a enfermeira parteira, no bloco de partos, e uma hora depois, nascia a minha filha.

Foi assim que passamos a ser quatro. Foi assim que sem o termos planeado, cumprimos um devaneio de namoro: ter um rapaz e logo depois uma rapariga. E foi assim, que depois de ter achado que não aguentaria passar por tudo outra vez, me superei a mim mesma, e descobri que as mães são capazes de tudo. Todos os meus receios eram infundados, e sei que dei o melhor presente de todos ao meu filho, que nem se lembra de uma existência sem a sua melhor amiga.

Hoje, quando me veem com ambos na rua, perguntam-me muitas vezes “Eles são gémeos?”, e eu respondo, com um sorriso vaidoso na cara “Não. Têm um ano de diferença. Um ano e uma semana!”

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