Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

A participação da família na educação dos filhos

Crónica de 19 / 08 / 2015

CRÓNICA DA MÃE:

A minha primeira relação séria, a primeira pessoa com quem vivi, foi com um rapaz mulato, 10 anos mais velho que eu.

A minha avó, senhora de tenra idade, conservadora, da aldeia, que ainda usa laca na cabeça, um dia disse-me: “ai filha, confesso-te que às vezes me faz impressão ver-vos juntos!”

“Ó avó, no escuro, somos todos iguais!”

Pronto. Nunca mais me perguntou nada. E a ideia propagou-se: meterem-se na minha vida podia ser mais arriscado do que não se meterem. É que eu tendo a responder à letra.

Esta sou eu. Dizem que é por ser escorpião, uns. Outros, que é por ter mau feitio. Mas sou assim desde que era adolescente. Quando estava grávida. E em qualquer fase da minha vida: sempre gostei pouco que se metessem na minha vida.

Quando fui mãe não deixei de ser eu própria: quem me conhece bem, ligava a perguntar quando me podia visitar na maternidade. Mas ainda houve quem levasse a mal eu dizer: epá hoje estou farta de ver pessoas, venham amanhã. Foi alguém muito próximo, que deixou de me falar durante uns dias. Até que depois lá apareceu com um peluche do meu tamanho em casa, no dia que combinámos.

Quando dizemos tudo o que pensamos, e os outros sabem, a família só se mete quando acha que estás a meter a vida da tua filha (porque a tua deixa de ser muito relevante) em risco.

Eu durmo com a minha filha. Pimba motivo de alerta. Eu continuo a gostar de beber uns copos. Pimba a mulher está maluca. Eu pego na minha filha e vou dormir a casa de amigos, no sofá ou no chão.

Dizerem-me alguma coisa? Com jeitinho. Devagarinho. No meio de um ou outro bolo para o açúcar me adoçar.

É que eu sou a desbocada que pode responder e levar a mal. Além de que falo alto. Onde quer que esteja. E há que recear a minha resposta.

Às vezes a minha reputação precede-me. E já nem preciso de dizer nada para não ter de ouvir nada.

Porque a verdade é que a minha filha é saudável. Cheira bem e anda lavadinha. Não cospe no chão nem bate nas pessoas. Há alguma coisa assim tão importante a apontar?

O M. não gosta muito que eu diga o que penso alto e bom som. A não ser quando alguém oferece à nossa filha um fatia de bolo cheio de açúcar e natas e eu digo, alto e em bom som: “A MINHA FILHA NÃO COME ISSO, POR FAVOR NÃO LHE DÊEM. E SE LHE DEREM EU VOU TER DE LHE TIRAR DA MÃO.”

Ai ele cora. Mas agradece-me.

É que não há amor como o da família. E essa é mais uma razão para ser importante haver alguém que não tem travão na língua.

CRÓNICA DO PAI:

Ora bem, sou filho único!!! Tenho uma família pequena mas sempre achei piada àquelas famílias cheias de gente, um barulho infernal, portas sempre a abrir e fechar etc etc. Talvez por essa razão terei tido uma filha cedo (cedo?? O cedo de hoje… Parece que ter menos de 30 anos já é cedíssimo…) e como tal, todos os nossos amigos pertencem ao grupo daqueles que casar está fora dos planos e filhos “depois logo se vê”.

Por ser dos poucos que ainda faz tudo como vem nos “livros”, começo a ficar farto de fazer festas… É o quarto ano consecutivo que abdico das férias para preparar o noivado, o casamento, o babyshower e este ano o baptizado!!!! A minha excelentíssima mulher livre-se de algum dia me atirar à cara que não sou um bom companheiro!!!

Bem, isto tudo para dizer que fomos os primeiros e únicos no grupo de amigos até agora e atrevo-me a dizer nos próximos anos que deixamos a nossa semente no mundo! É preciso ver o lado positivo das coisas, temos amigos disponíveis, com vontade de ajudar e digo-vos, tenho ficado surpreendido com a ligação que muitos deles já criaram com a piquena. Ela é louca por eles… no outro dia uma amiga apareceu com um anel com um “B” gravado. Estupidamente perguntámos-lhe: “é um B de quê?” Ao que nos responde como se fosse a coisa mais óbvia: “Então, é um B de Benedita!”

Não vivemos propriamente perto das nossas famílias, e portanto não temos a sorte de ter todo aquele apoio diário que tão útil é, o que só realça a importância do papel dos “tios” e “ tias” que tão bem nos têm acompanhado nesta aventura. Mais que uma opção, torna-se uma necessidade a influência que estes têm na (des)educação da Benedita… E sabem que mais? É com um enorme gosto e prazer que “dividimos” este bebé com todos aqueles que gostam dela!

Com 8 mesitos, é ainda muito cedo para se verem os efeitos dessa tal (des)educação, mas já se começam a ver umas quantas maluqueiras aqui e ali… (principalmente por parte dos avós!)

A ver vamos, mas tal como já ouvimos várias vezes da boca de familiares e amigos: “Este bebé não é vosso, é NOSSO”! Posto isto, está tudo dito!

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