Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Na cabeça de uma mãe desempregada.

Crónica de 24 / 08 / 2015

Sai de casa para ir estudar fora com 17 anos. Há precisamente 20 anos atrás, portanto.

Em 20 anos sobrevivi depois de viver em dormitórios (inicialmente), com amigos e amigas, com um ou outro namorado e sozinha. Maioritariamente sozinha. E posso dizer que mais sobreviver, eu vivi.

Sempre trabalhei, (que remédio!) mas confesso que nunca fui carreirista: a vida sempre me chamou muito mais que o trabalho.

Este podia ser o resumo desta crónica: a vida sempre chamou por mim mais que tudo o resto.

E por isso nunca gostei muito de cozinhar. Apesar de bastar olhar para mim para perceber que gosto de comer. Nunca gostei de passar a ferro. Sempre comprei roupa que não precisasse pois nunca tive dinheiro para “mandar passar fora”. Nunca gostei especialmente de passar horas à volta das lides da casa. Por isso, com o tempo, adoptei casas mais minimalistas. Coloridas, cheias de bugigangas de viagens, mas minimalistas. Que, apesar de tudo, nunca gostei muito de casas com pó.

Fico desempregada em simultâneo com ter sido mãe. Algumas pessoas já sabem: não foi minha opção inicial: eu estava até a preparar a fusão da minha empresa com outras. Mas aconteceu. E nada do que estava na mesa compensava deixar a minha filha.

Conto agora com praticamente 19 meses de emprego de mãe e desemprego de rua. E às vezes, confesso, é difícil. Muito difícil.

“É agora! Está sempre a por fotos da praia e viaja e tudo! Olha-me esta!” Dirão alguns.

Aconselho a quem pensa assim que lave a cabeça com um sabonete realista: é que estão a confundir desemprego com depressão. Sim, as pessoas desempregadas arranjam 1 ou 2 ou 5 euros para apanhar o comboio, uma boleia, ou uns litros de gasolina e ir à praia. Se estiverem bem de cabeça, é mesmo o que farão. Porque bater com a cabeça nas paredes é para os loucos. Não para os desempregados.

“Onde é que ela quer chegar então?”

Quero chegar a isto: o tempo corrói. os olhos dos outros também. E às vezes os olhos dos outros tornam-se os nossos.

E, com o tempo, sinto que olham para mim, questionam a minha capacidade de ser auto-suficiente, como se eu ter sobrevivido 20 anos sozinha fosse um milagre! Porque, de outra forma, eu devia ter começado a gostar de cozinhar e passar a ferro, e, obviamente, a estar mais em casa que na praia.

O que é difícil é que, com o tempo, as pessoas parecem assumir que a vida é um jogo de xadrez: se não jogas com as pretas, jogas com as brancas. Se não trabalhas e vais à praia, és desleixada. Se nés mãe a tempo inteiro, já não podes participar nas conversas intelectuais. Porque se não jogas com as pretas nem com as brancas, então que fazes?

Sou mãe. E gosto muito. Intelectualmente? Às vezes queria mais, sim. Mas não bater com a cabeça nas paredes, não. Isso deixo para os tolos. Eu prefiro mesmo ir para a praia com uma sandocha de manteiga na mala.

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