Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Uma história do meu passado

Crónica de 07 / 09 / 2015

Durante um tempo da minha vida, fui responsável por um Centro de Saúde no meio de um Parque Nacional.

Uma zona muito pobre que, por isso mesmo, me fez saber e ver coisas que nunca imaginei.

Há várias. Há muitas… Hoje deixo-vos uma das que me marcou.

Um dia à noite sou chamada à clinica: bebé com menos de 1 ano tinha morrido.

Como era de noite, os pais – ambos lá-, não podiam ir para casa, porque para isso era preciso atravessar um rio que tem crocodilos. Portanto á noite estava fora de questão.

Quando cheguei lá, estavam todos deitados no chão. Pois não havia camas. O bebé, à distância possivelmente a dormir, tinha uma quietude que só a morte tem quando peguei nele. E lhe tirei as formigas que iam subindo por ele, sem luta.

Fiquei fora de mim, “roubei” jantares do resort, e fiz coisas que nascem do Robin dos Bosques que há dentro de mim.

Chamaram-me à parte os enfermeiros que tomavam conta da clinica: é que a mãe da criança estava muito chateada. Era 6ª feira e havia festa na vila. A que ela faltaria..

Como devem imaginar, é uma das histórias que não se digere. Nunca…

Mas lembrem-me de uma história que tinha lido há uns anos, de uma antropóloga que estava no Brasil e que acompanhou a mãe de uma criança muito doente ir dançar para o Carnaval sendo que a criança morreu enquanto ela lá estava.

A antropóloga assumiu que não julgava esta mãe e foi condenada pela comunidade internacional de antropólogos por ter transparecido uma opinião.

Opiniões? Não sei… acho que não tenho depois de tudo o que vi. Acho que há pessoas boas e más em todo o lado. Acho que a sorte e o azar podem ser facetas lixadas da mesma moeda. Acho que, o objectivo máximo, devia ser o de conseguir não julgar. Será possível?

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