Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

CRÓNICAS DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON: "E depois de Paris? Ainda lhes ensinamos que somos todos iguais?"

Crónica de 17 / 11 / 2015

CRÓNICA DA MÃE

Quando era pequena, eu era muuuuito, muito gorda. Era muito gozada na escola e tive, inclusive, vários episódios desagradáveis de bullying. A primeira vez não fui de modas: chamei a criança em questão para o pátio e disse-lhe: “abre a boca e fecha os olhos que tenho uma surpresa para ti!” e enfiei-lhe uma mão cheia de areia na boca. Problema resolvido. Das outras vezes não correu tão bem e vim várias vezes para casa a chorar: porque raio tinha eu de ser gozada e minimizada por uma característica que, ainda por cima, tinha dificuldade em esconder??!

Quando era um pouco mais velha fui estudar para Inglaterra. Talvez por ser mulher, nunca me aconteceu nada. Mas vários colegas meus – mais precisamente espanhóis e gregos – foram várias vezes atacados: é que nós não éramos brancos. E isso era uma grande novidade para mim: como é que eu podia ser tão “normal” no meu país e uma “casta inferior” ali?!

Uns anos mais tarde, depois do 11 de Setembro, estava a embarcar dos Estados Unidos para Londres quando entra um senhor Árabe no avião. Sei que o era não porque eu seja uma adivinha de origens ou religiões mas porque usava uma roupa distintiva desta sua identidade. Tive receio: era seguro viajar com aquele senhor? Será que alguém o tinha revistado? E se se sentasse ao meu lado?!

E foi aí que percebi aquilo que, sumariamente, gostava de vos dizer nesta crónica: o medo é um instinto de sobrevivência. E, por isso, todos temos medo. Temos medo de encontrar um tubarão no mar. Ou um carro a alta velocidade na nossa direcção. Eu fiquei com medo de andar sozinha em alguns locais depois de uma tentativa de violação em adolescente. Isto é medo e faz sentido. E é normal sentirmos medo que algo semelhante ao que aconteceu em Paris aconteça aos nossos. Afinal, temos filhos que queremos proteger a todo o custo!

As nossas reacções ao medo é que são outra coisa: o que fazemos quando vemos o tubarão? gritamos? nadamos? batemos-lhe? (Lembro-me por acaso de uma vez ver uma reportagem sobre pessoas que não tinham a hormonal que desencadeia o medo e houve um homem que bateu num tubarão até ele fugir :)). É esta reacção que determina quem somos. E é esta reacção que devemos, a meu ver, ensinar aos nossos filhos. É esta reacção a um instinto natural que determina o curso da humanidade.

É claro que podemos apostar no medo. Comprar uma casa maior e mais isolada. Arranjar segurança e controlar o acesso do mundo a nós e vice-versa. Mas isso só perpetua o medo. Porque é assumir que ele existe e é maior que nós. Não controlamos o mundo. Mas controlamos as nossas reacções a ele.

Como, num dia em que estava a tirar a carta de condução e, face a não saber o que fazer numa rampa, tirei as mãos do volante e tapei os olhos. A solução era fantástica: assim eu já não via o problema nem ia ser responsável por contribuir para ele. Mas isso não me ia adiantar de muito se o instrutor, homem porreiraço, não tivesse travado o carro e, simplesmente, me dado um calduço.

Só tenho uma filha e é pequena. Mas a relação que gostava que ela tivesse com o medo é a mesma tenha eu uma filha ou dez (ajuste de contas com o Fernando :p): o que quero que a minha filha saiba é que vão sempre existir pessoas e acontecimentos maus. Às vezes por culpa de alguém. Outras de ninguém. Que ela sentirá medo a vida toda, e isso é bom. É sinal que está viva e é humana. Mas que não deve, para se proteger do mal, achar que tudo é mau ou que deve ter medo de tudo.

Para se proteger do mal, só há uma solução: não contribuir para haver mais mal no mundo. Não deve odiar. Deve amar. Não deve atacar. Deve proteger.

Porque sim, somos todos iguais. Todos os que somos pelo bem. E isso não é de todo determinado pela religião, cor de pele ou até peso do corpo.

CRÓNICA DO PAI:

Claro que lhes ensinamos que somos todos iguais.

Desde logo porque para eles, nós somos de facto todos iguais – as “diferenças” são algo que nós, enquanto sociedade, vamos alimentando voluntária e/ou involuntariamente ao longo do seu crescimento

É lindo perceber que na creche a cor da pele dos amigos é irrelevante – a cor da pele é tão indiferente como a cor do cabelo ou dos olhos.

Mais tarde as diferenças vão-se acentuando e as características físicas e étnicas já vão servindo para distinguir os colegas: a pele, os nomes estranhos, os olhos rasgados, tudo vai servindo para acentuar as diferenças.

E é natural, convenhamos – os miúdos vão diferenciando os outros no seu caminho em busca da sua própria individualidade.

Não nos cumpre ignorar as diferenças, até porque são evidentes, mas importa contextualiza-las e retirar-lhes importância.

E por vezes podemos até investir em discriminação positiva.

Não vale a pena fazer de conta que na escola não há africanos ou orientais, mas não podemos deixar que a constatação da diferença resvale para a descriminação. Não podemos permitir que a diferença seja usada como arma de arremesso, seja pela origem étnica ou por qualquer outra característica física.

Não devem referir-se aos colegas como “o preto” ou “a chinesa”, pela mesmíssima razão que não devem chamar “o gordo”; todas as pessoas têm um nome, ponto!

Nós insistimos para que soubessem, por exemplo, os nomes dos meninos chineses lá da escola. Podem não ter ficado muito amigas da rapariga da loja chinesa que ficava na porta ao lado, até porque a miúda tinha naturais dificuldades para se expressar, mas no recreio trataram-na sempre pelo nome – respeitaram sempre a sua identidade.

Nós em casa íamos perguntando por ela, e sempre valorizámos o esforço e o sacrifício que ela fazia, para que os nossos percebessem a dificuldade que é vir de outro País e de outra língua, e cair de paraquedas na “nossa” escola.

A certa altura chegaram à escola, a meio do ano lectivo, uns meninos que vinham de leste (não me recordo se da Moldávia ou da Roménia), e houve muitos pais que lhes mandaram guloseimas através dos filhos. Foi uma espécie de cabaz de boas vindas em forma de chupa-chupas e sugos..

Até pode fazer mal aos dentes, mas aos miúdos acabados de chegar deve ter sabido bem receber umas guloseimas no novo País de acolhimento, das mãos dos novos colegas de quem ainda nem sabiam os nomes.
As crianças nascem sem preconceitos e devemos tentar preservar esse estado de generosidade original.
O que importa é lembrar-lhes aquilo que eles sempre souberam quando eram mais novos – podemos ser todos diferentes mas no fundo somos todos iguais.

Quanto a Paris… bom, nós tentámos conversar com as mais velhas mas elas só têm 10 anos. Ainda perguntaram:
“- O quê? Eles mataram as pessoas e depois mataram-se? Mas para quê?”
E nós percebemos que tudo aquilo é demasiado estúpido para ser explicado a um ser humano minimamente inteligente.

Seria como explicar-lhes que há adultos que acreditam que devemos culpar os refugiados porque apareceu um passaporte sírio junto a um dos corpos – as minhas filhas são demasiado inteligentes para acreditarem que os passaportes resistem a incêndios e explosões.

Não é fácil compatibilizar a inteligência das crianças com a estupidez dos adultos…

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