Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Ser boa mãe, é ser má mãe

Crónica de 25 / 11 / 2015

Um dia uma amiga psicóloga disse-me: “a tua filha terá de aprender todas as emoções, incluindo a raiva.”

Aquilo fez-me tremenda impressão… eu ainda achava que a iria poupar de todas as emoções mais beras. Contudo, lá no fundo, eu sabia que ela tinha razão: a minha filha iria ter de aprender – e eu teria de ver – emoções como a raiva, a furia, a tristeza e a frustração.

Já falei demasiadas vezes sobre a minha situação. Mas, resumindo para quem vai chegando: de empresária a dona de casa há dois anos (ou seja, desempregada…); recentemente a preparar-me para viver parcialmente sozinha com a minha filha pelo facto do meu companheiro arrancar com um projecto de trabalho longe.

Não se iludam: a Lei de Murphy existe e funciona. Ou seja, se tudo está a correr mal, preparem-se: vai correr ainda pior.

Não bastasse estar no limite da minha capacidade financeira, estou há um mês e meio à espera de electricidade na casa nova, ao ponto do M. (gajo céptico a 200%) dizer que eu devia ir à bruxa!

Bem… o que vos quero dizer com isto é que virei uma mulher bomba, sempre à espera de explodir.

Problemas temos todos, claro. Mas, para mim, ser boa mãe é a coisa que mais quis na vida. E, portanto, perceber que o meu stress afecta a minha maternidade, porque vou estando mais impaciente, e que há dias que “sou eu e não ela” tem acrescentado vários “Murphys” à minha vida.

Até aqui tenho tentado esconder as minhas preocupações. Mas acabo sempre por, qual panela de pressão, desatar a apitar. E depois fico um caco por não ser melhor mãe, e por deixar os meus problemas interferirem na mãe que sou.

Mas ontem a vida foi minha amiga. Ou o Murphy estava de folga! Lá fui de novo à EDP, saber porque não me tinham ligado a electricidade um mês e meio depois. Ia com pedras na mão. Bombas atadas ao corpo. E uma verborréia preparada para insultar até a cancela do estacionamento.

Mas sabem o que me aconteceu quando, mais uma vez, me disseram que ainda não tinham novidades para mim? Desatei a chorar. Sim, desatei a chorar à frente da minha filha.

Não é comum as pessoas mostrarem as fragilidades em publico. E, confesso, que ao inicio, fiquei muito aflita pela minha filha.

Mas este foi o momento de luz: a Clara foi a única que não se alterou quando me viu chorar. Foi a única que viu em mim a expressão de um sentimento sincero. Viu em mim a mãe de sempre, só que triste com algo. Continuou a ver a mãe que a ama incondicionalmente. Independentemente de estar a chorar: ela sabia que aquilo não tinha a ver com ela. Porque eu não estava a chorar para ou com ela. Eu estava só a chorar ao lado dela.

Nós, mães, somos umas tolas. Os nossos filhos sabem muito melhor que nós lidar com sentimentos.

Eu costumava ter vergonha. Vergonha de não ser perfeita. Tinha medo de não conseguir conter sentimentos maus. Medo de não ser sempre boa mãe.

Mas ontem percebi que temos de assumir todas as emoções. Porque temos de ensinar todas as emoções aos nossos filhos. Sem qualquer vergonha ou embaraço. Da mesma forma que queremos que eles as demonstrem pela vida fora.

Ontem aprendi que ser boa mãe, é ser má mãe. É gritar, é chorar. E saber que os nossos filhos nos continuarão a amar. Porque não é com eles que estamos a gritar ou a chorar. E continuaremos a ser a melhor mãe do mundo. Porque até a melhor mãe do mundo chora. E grita. Porque a melhor mãe do mundo não é perfeita.

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