Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2017

O que é que mais nos irrita nos nossos filhos? CRÓNICA DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON

Crónica de 08 / 12 / 2015

CRÓNICA DA MÃE:

Sendo eu a mãe fofa, de primeira viagem, com 37 anos, seria expectável dizer que nada me irrita, tudo na minha filha é fofo.

Mas, sendo verdade que ao contrário de tudo o resto nesta vida, a minha filha praticamente não mexe o meu ponteiro da irritação, há duas coisas, duas e só duas, que desde que nasceu me irritam profundamente. Assim como me fazerem as sobrancelhas com uma pinça: é mais forte que eu mas mexe com algo que me faz ficar à beira de um ataque de nervos: ela não dormir. Ela não obedecer.

Quem a conhece, sabe que ela é uma santa. Portanto devia era estar caladinha.

E essa é a verdade: o que nos irrita nos nossos filhos diz mais sobre nós do que sobre eles.

Portanto ela não dormir, depois de eu passar 45 minutos a tentar fazê-lo (sim, não sou daquelas que a deita na cama, diz adeus e vai-se embora) faz o relógio interno que diz que a minha hora para mim própria está a chegar entrar em deficit: caraças, sou mãe 24 horas por dia, estas horas são minhas e só minhas e preciso delas como de ar para viver.

Ela não obedecer é o climax, para mim, da falha da maternidade: então não era suposto eu falar mais alto, ou dar um tau-tau no rabo e tudo voltar aos eixos, qual colégio militar? Era, pois era. E ela não o fazer, mais uma vez, diz mais sobre mim que sobre ela: tenho de inventar novos métodos. E tenho de me (re)lembrar que a maternidade é um puzzle em eterna mutação.

Mas tudo isto era uma teoria fechada, bonita e arrumada até mudar de casa. E perceber que se já sabia que tudo isto diz mais sobre mim que sobre ela, quando juntas uma mãe cansada, a uma filha insegura por mudar de casa, acabaste de cozinhar um caldeirão de Obelix de potenciais irritações.

Mas lá está: eu sou uma gaja muito fofa no que toca à maternidade :p

E o que me tem safo, à minha filha, e à nossa relação é eu lembrar-me permanentemente disto: as irritações são minhas e não dela. E enquanto eu me lembrar disso (e de que no final do dia o copo de vinho continua lá à minha espera) está tudo salvo no santo mundo da maternidade.

mas lá está: eu tenho uma filha. Mais que isto e “chapadas”, gritos, e consultas a sites de viagens para Marte, fariam, certamente, parte das minhas sinapses diárias.

CRÓNICA DO PAI:

O que é que eles fazem que mais me irrita?
Bom, esperem um bocadinho que eu vou só ali à Staples comprar uma resma de papel e já venho, ok.
De papel A3, entenda.se…
É que nem sei por onde começar.
Há dias em que me chateia que eles respirem.
Basta uma inalaçãozinha de oxigénio para eu me passar dos carretos.
– ESTÁS A RESPIRAR? FAZES ISSO MESMO SÓ PARA PROVOCAR O PAI!!!
Felizmente eles passam umas horas valentes a dormir – geralmente durante esse período não me irritam.
A chatice é que eu também estou a dormir durante boa parte desse período e acabo por perder a oportunidade de descansar da irritação deles, mesmo estando a descansar.
Estar a dormir quando os putos estão a dormir é um bocado como não aproveitar os saldos. É como sair do estádio a 5 minutos do fim e perder o golo decisivo – é parvo.
Acho que vou implementar um esquema de turnos aqui em casa para poder dormir quando eles estão acordados, e vice-versa..
A minha tia Anabela às vezes diz que eles estão mesmo a pedir um cheirinho a gás e eu gosto muito da minha tia Anabela.
Mas nunca tive lata de perguntar ao veterin… ao pediatra qual seria a dose de gás adequada ao peso de cada um deles para os deixar mais calmos.
E nem sequer é por receio de que ele me denunciasse à segurança social – o nosso pediatra está mais preocupado com o facto de eu ser do Sporting porque acha que, isso sim, representa um perigo para a educação das crianças.
Não consigo fazer uma lista exaustiva do que mais me irrita neles mas posso arriscar um micro resumo.
Por exemplo…
Irrita-me que passem a vida a falar demasiado alto; o facto de eu às vezes falar alto com eles não lhes dá o direito, caramba.
E passo-me quando se põem a ralhar uns aos outros. Sim, eu ralho, mas eu sou o pai, que raio.
E chateia-me a sua surdez seletiva; às vezes eles chamam durante a noite e eu faço de conta que não ouço até ir lá a mãe, mas isso é completamente diferente.
E enerva-me que não sejam mais aplicados nos estudos; o facto de eu ter sido um calão a vida toda não lhes dá legitimidade.
E zango-me quando desatam a cantar e a dançar à mesa como se aquilo fosse um bailarico – às vezes eu faço palhaçadas mas eu sei sempre quando devo parar.
E não aceito quando vêm fazer queixinhas dos irmãos; eu denunciava a minha irmã, ok, mas nessa altura eu era apenas uma criança.
Enfim, não acho profundamente irritante que sigam tantos maus exemplos – não sei onde é que os miúdos vão aprender aquelas coisas.
Deve ser na escola, com certeza.

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