Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Mudar de casa. Com uma criança. Ou uma homenagem às mães solteiras.

Crónica de 09 / 12 / 2015

Cada um sabe de si. Mas, no meu caso, mudar de casa enquanto o pai da Clara ia trabalhar para longe, implicou fazer o processo de me sentir preparada para ser mãe sozinha.

Mudar de casa é mudar de casa: uma seca! Caixas caixotes e caixinhas. Pó. Cotão. E quinquilharia que juramos nunca mais arrecadar. Até à próxima casa…

Tive muita ajuda da família. Sou uma grande sortuda no que toca à família. Eu que até sou fruto de uma família altamente disfuncional vos digo: não há amor como o da família, mesmo que seja disfuncional!

Mas porque digo que esta crónica é um elogio às mães solteiras?

É porque, nunca situação normal, o trabalho de mudar de casa é o de desempacotar. De arrumar tarecos decorativos em novos lugares decorativos. Montar e escolher cortinados de tons cromáticos esteticamente agradáveis. Tirar o pó às loiças que podem agora ter mais espaço para ser mostradas, nem que seja à mesa. Rever os pechisbeques que ganhámos no casório ou em qualquer outra homenagem amorosa da nossa existência.

Mas, numa situação em que estás sozinha com uma criança, cada pechisbeque arrumado, são dois brinquedos desarrumados. Cada loiça tirada da caixa, é uma refeição que vamos preparar, cozinhar e arrumar. E cada caixa desempacotada, é tempo que não estamos a explicar aos nossos bebés porque estão numa casa nova.

É que por mais que digam que um bebé não sente a mudança e é flexível à novidade, eu vos digo que é tudo mentira: não há ninguém mais estranho à mudança que um bebé.

Explicar-lhe que a casa é nova não justifica porque deixou de haver a velha. Explicar-lhe que o papá foi trabalhar longe, não explica porque ele não está perto. E estarmos a desencaixotar pechisbeque para tornar a nova casa um lar, não nos deixa de fazer sentir, a cada segundo, que é um tempo que não estamos com os nossos bebés, a tentar partilhar com eles o sentido da vida nova.

Talvez crescer seja isso mesmo: eles perceberem sozinhos as mudanças. E nós percebermos que não os podemos poupar a tudo.

Então mudar de casa com um bebé é um acto heróico. Acima de tudo porque um bebé não é só um pechisbeque. E por cada objecto que arrumamos, é um bocado da história do nosso bebé que escrevemos.

E às vezes mais vale deixa-los desarrumados. Para que a memória seja do tempo que passaram connosco. Numa casa desarrumada.

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