Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2018

Nudez com crianças: sim ou não? CRÓNICAS DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON

Crónica de 15 / 12 / 2015

CRÓNICA DA MÃE:

Pronto. Já fui. Apanharam, provavelmente, o meu calcanhar de Aquiles.

Por partes. Eu venho de uma família conservadora. A minha avó sempre me disse que sexo é para procriar. A minha mãe, que não que ter ter vergonha. Apesar de, com a idade, ter sempre vindo a dar razão à minha mãe.

Eu gostava de ser daquelas gajas que tem muito orgulho no corpo. E faria nudismo e andaria com mais coisas ao léu se gostasse mais do meu corpo. Mas não sou.

Mas depois de estar grávida. E abrir as pernas a todos os médicos. E fazerem-me toques. E dar de mamar. E mais uma série de outras coisas que me fizeram perceber que o meu corpo não era, afinal, meu, confesso que mudei.

Mas isto digo eu.

A verdade é que o M sempre me disse: “não andes toda nua por casa! Olha os vizinhos!” E pensava eu: “mas quais vizinhos? Quem é que quer olhar pela janela para uma gorda?!” E sempre andei nua pela casa. Às vezes até a brincar com a Clara e a dizer: “Clara olha a mãe toda nua com uma toalha de capa de super herói!”

No outro dia ela virou-se para mim, quando andava eu, pululante , toda nua pela casa, e disse-me “lá anda a mãe toda nua pela casa!”

Confesso que fiquei orgulhosa: queres ver que superei os meus próprios estigmas? :)

CRÓNICA DO PAI:

Ok, isto é tudo empírico, mas eu sempre achei que uma relação despreocupada com o corpo ajudava a lidar com normalidade com os tabus que lhe estão associados.

Se todos temos um corpo, o melhor será assumi-lo sem stress.

É claro que também nos socorremos do pudor nos casos em que as convenções sociais manifestamente o imponham – não vamos nus fazer as compras de Natal, e não é só por causa do risco de apanhar uma constipação.

Lá em casa andamos nus sempre que as tarefas da higiene o impõem, e não nos andamos a esconder.
Faz-me aliás alguma impressão ver as crianças de 6 ou 7 anos, no balneário da natação, a tomarem duche de calções, e assusta-me (mesmo) ver uns papás a segurarem na toalha para os meninos vestirem as cuecas e não ficarem despidos ao pé dos outros meninos.

Temo que este pudor que é imposto a crianças tão novas se transforme em vergonha, com toda a sua carga negativa, e se venha a refletir no futuro numa postura complexada e inibida em relação ao seu próprio corpo.

Foi por isso que estranhei uma crónica do Dr. Quintino Aires na “Hora do Sexo” da Antena 3; eu costumo gostar de o ouvir e subscrevo frequentemente o que diz, mas ele defendia que pais e filhos não deviam andar nus em casa à frente uns dos outros, muito menos a partir dos 10 anos.
Desculpem mas, até ver, comigo não dá…

É que lá em casa somos 6, só temos uma casa de banho, e vivemos bem com isso.
E é evidente que é do universo da casa de banho que falo – não me passa pela cabeça ir nu para a sala com os miúdos ver o Noddy ou a Violetta, ou sentar-me nu no sofá a ver a Ana Lourenço na Edição da Noite da SIC Notícias – não sou um freak, ok?

Eu costumo dizer que lá em casa se caga de porta aberta – a imagem pode não ser muito bonita, mas a casa de banho tem que estar sempre disponível porque nunca se sabe quando é que aparece uma emergência numa casa com 4 filhos.

Muitas vezes estão lá vários utilizadores em simultâneo, e acho que até já conseguimos fazer o poker de estar eu no duche, um na sanita, uma no bidé e aparecer alguém para lavar os dentes.
Somos uma família numerosa; queriam o quê?
Para não vermos os corpos uns dos outros, ou nos começamos a levantar às 5:30 da manhã para fazermos turnos à porta fechada, ou então compro um fato de surf para usar no duche sem traumatizar as criancinhas.

Em alternativa, quando as miúdas atingirem a puberdade, posso vendê-las como esposas virgens para o Estado Islâmico. Sempre ganho umas massas e poupo as miúdas à maçada de ficarem traumatizadas por verem os corpos nus do pai e da mãe no chuveiro.
Não se trata de uma questão de auto-estima, – mas eu tenho este corpo e é com ele que tenho que viver. E gostava que os meus filhos encarassem os seus corpos com a máxima naturalidade possível, e da forma o menos complexada possível.

Para além da questão prática de termos que gerir uma cooperativa de utilizadores da casa de banho, acho que quanto mais normal for a minha relação com o meu corpo, mais descomplexada será a deles com os seus corpos.

Se vai ser sempre assim?
Sei lá!
Eu sou só o tipo que faz As Crianças São Muito Infantis, não sou o Prof. Bambo.

P.S. um abraço para o Dr. Quintino Aires (e para a Raquel Bulha) que fazem um belíssimo trabalho e parecem ser umas joias de pessoas.

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