Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

É Natal, é Natal... CRÓNICAS DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON

Crónica de 23 / 12 / 2015

CRÓNICA DA MÃE:

Opá… eu odeio o Natal! Já o disse tantas vezes que hoje me ligaram a dizer: “está quase a acabar” como desejo natalício…

Bom, não odeio o Natal em si… adorei todos os Natais que passei de havaianas na praia. A beber Gin tónico e a dar mergulhos no mar. Com zero centros comerciais num raio de … 10 mil km?

No fundo, sou um clichê quase fera, sem as rastas e os cães: odeio o consumismo. odeio a publicidade. odeio o frio. odeio a roupa especial do dia de natal em género casamento. odeio que o amor tenha sido comprado pelo consumismo.

O ano passado, aqui nas crónicas, disseram-me: “depois de seres mãe isso muda!”

Não muda nada. dava um dedo mindinho para estar com a Clara na praia, eu com o bendito min tónico e ela com um biberão natalício ou algo que o valha.

Mas há coisas que gosto e, de facto, depois de ser mãe gosto ainda mais: de expressar o amor.

E, da mesma forma que um dia me despedi de um emprego de 5 mil euros para passar para outro de 100 euros, o meu pensamento é: “se reclamas de tudo, quem está mal és tu. Muda-te.”

Então este ano, um ano muito especial para mim por a minha vida ter continuado a dar voltas – pois que não lhe chegava tirar-me a empresa, o emprego e a casa – decidi: não gostas do Natal, mas gostas de amar. Então ama os teus.

Tenho feito prendas de Natal. Tenho estado com os amigos. Tenho escrito cartas. Tenho explicado à Clara a alegria de fazermos algo para quem gostamos.

E sabem que mais? À falta de min tónico, bebo um copo de tinto enquanto faço prendas de Natal. Feliz. Acima de tudo porque amarmos as pessoas é superior a qualquer feriado, religião ou temperatura exterior.

CRÓNICA DO PAI:

Sei bem que esta é uma época com uma enorme importância religiosa.

Ao que parece, Deus teve um filho e por estes dias celebra-se esse facto aparentemente extraordinário.
Só que eu tive 4 e, vai daí, não fico deslumbrado com o facto de o Senhor do universo ter tido 1.
Parece-me aliás poucochinho para Ele que é omnipotente; eu que não sou ninguém, tive potencia para 4.
E logo à primeira tive gémeas – incha Criador.

Mas nem assim me considero especial – escusam de me divinizar, ok?
Não tenho pachorra para grupeis.

Ah, e livrem-se de queimar pessoas em meu nome. Credo, que estupidez…

Bom, mas não tendo para mim nenhuma carga religiosa, para que serve então o Natal?

Em bom rigor, como tudo na vida, serve para aquilo que vos apetecer, desde cultivar o amor a espalhar egoísmo e esbardalhar o plafond do cartão de crédito.

Quando eu era miúdo, todas as crianças da família ofereciam presentes aos adultos. É claro que as estrelas do Natal éramos nós, as crianças. Mas os nossos pais, avós, tios e primos, davam e recebiam. Tal como os mais novos.

A minha mãe tinha 10 irmãos e por isso o Natal era uma festa enorme. E apesar de ser uma família de ateus e agnósticos (à exceção da minha avó), o Natal sempre foi “a festa” da família.
Umas semanas antes os miúdos iam pensando nos presentes que iam oferecer e todos fazíamos alguma coisa; a sofisticação dependia da idade e do jeitinho para os trabalhos manuais.

E alguns dos nossos tios e tias mentiam tão bem, mas tão bem, que nós ficávamos mesmo convencidos de que tinham gostado do nosso presente.

O Natal sempre foi uma época de dar e de receber, e eu sempre adorei o Natal.
Fomos aprendendo que o prazer estava na partilha.

É por isso que acho estranho quando ouço as pessoas dizerem que o Natal é só para as crianças, que para os miúdos é que é especial – no fundo é como se dessem mais valor à passividade de receber do que à ação de dar. E para mim isso é quase a negação do espírito do Natal – é reduzir o Natal a uma sequela do aniversário.

Cá em casa fazemos uns presentes caseirinhos para oferecer à família toda, e eles ajudam a decorar – e gostam.

Andam excitadíssimos com a ideia de receberem presentes, mas sabem que dar algo de si faz parte do processo.

E depois hão de dizer aos tios e avós, muito orgulhosos, que foram eles que colaram aquele bocadinho de feltro ou que colocaram aquela fita – que ajudaram a fazer aquele presente.
E aos poucos vão percebendo que a magia do Natal, tal como a magia da vida, está em dar e receber.

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