Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

24 meses de desemprego em 24 lições

Crónica de 06 / 01 / 2016

A Clara faz este mês 2 anos. E faz, também, este mês 2 anos que deixei de trabalhar.

24 meses de maternidade. Que coincidem com 24 meses de desemprego.

Desta vez, deixo-vos o que aprendi em 24 meses de desemprego. Que, a seu tempo, celebro convosco os mesmos 24 meses mas de maternidade.

  1. O desemprego deixa-te frágil. Por isso, não te exponhas demasiado. Mas também não te isoles demasiado.
    1. Os filhos recompensam muito. Mas não tudo: o trabalho interno, do que vem a seguir e como viver estes meses, está dentro de ti.
    2. O tempo é o teu maior amigo mas também maior inimigo. Aprende a fazer as coisas devagar. Foca-te em fazê-las melhor. Mas sempre sempre algo. Não pares. Mesmo que te pareça que o tempo parou.
    3. Esquece o dinheiro. Ou como o conhecias. Não tens dinheiro para dar uma prenda? Fá-la. Não tens dinheiro pra jantar fora? Acende umas velas. Aprende a fazer sushi online. Mas nunca, nunca te aches menos só porque tens menos dinheiro.
    4. Muitas pessoas vão desaparecer. E levarás um murro no estômago. Outras vão ficar. Agarra-te a essas. E não te esqueças que gostam de ti. E tu delas.
    5. Nunca te deixes levar por sentimentos negativos. O que estás a viver é parte da tua história. E não parte de um plano mirabolante para que tudo te corra mal.
    6. Sai à rua. Para correr. Para passear. Para ir comprar sal. E depois novamente para ir comprar pão. Sai para ir apanhar vento na tromba. Mas sai.
    7. Não te iludas com a tecnologia: smartphones, facebook, iPads, computadores, TV e redes sociais em geral: estar “lá” não é estar a fazer “alguma coisa”. Tens mesmo de levantar o rabo.
    8. Vais enviar centenas de CVs antes de teres uma resposta. E a primeira (segunda, terceira, quarta…) será um não. Aprende a viver com isso. Dói, é um facto. Mas tens de te erguer e enviar mais CVs. E pensar, inclusive, o que podes estar a fazer mal.
    9. Não são os teus amigos que têm menos disponibilidade. És tu que tens mais. Lembra-te disso antes de te sentires sozinho.
    10. Nunca deixes de gostar de olhar ao espelho: arranja-te todos os dias. Numa versão mais rústica, claro, mas arranja-te. Não fizeste mal a ninguém para ter mau aspecto.
    11. Fala. fala tudo. Fala muito. Vão-te ocorrer mil coisas na cabeça e na alma, boas e más. Deves partilha-as. É importante que te sintas acompanhado.
    12. Aprende algo novo. Tricot. Yoga. Meditação. Doçaria turca. A fazer o pino. O teu cérebro agradece. A tua auto-estima também.
    13. Se estás em casa com o teu filho, vais querer esconder, muitas vezes, o teu estado de espirito. Fá-lo. Não o fazendo. É que todas as emoções têm de ser sentidas e aprendidas. E é melhor que seja contigo que aprende que a tristeza existe.
    14. Tu não és o desemprego. Tu estás simplesmente desempregado. Não vistas a pele, por mais que ela te queira vestir a ti.
    15. O sucesso dos outros não é o espelho da tua infelicidade. Fica feliz por eles. faz o teu caminho.
    16. Vão esperar muita coisa de ti. Que arrumes e limpes mais, que procures emprego, que estejas mais disponível. Não é o que importa. O que importa mesmo é o que esperas tu de ti?
    17. Vinho. Cigarros. Chocolates. Bolas de berlim. Não te vingues em nada. Nem procures que preencham o vazio que sentes. Mas também nunca deixes de beber um copo, fumar um cigarro, comer um chocolate um uma bola de berlim.
    18. Aceita ajuda. Precisar de ajuda é humano. Aceitar é um acto de coragem. Não sejas totó.
    19. Lê sobre a felicidade. Sobre a calma. A tranqüilidade. Lê sobre como podes chegar ao estado de espirito que queres. Vais precisar.
    20. Chora. Chora tudo o que te apetecer. Dá até um murro na parede se quiseres (na parede e não no vaso que era da tua avó, atenção). E depois volta exactamente ao sitio onde estavas: a desvendar quais os próximos passos da tua vida.
    21. Arranja uma obrigação: escrever diariamente. Passear o cão da vizinha. Fazer 30 flexões. Obriga-te a um compromisso com a vida e os outros. E não falhes. Afinal, já não tens 16 anos para te armares em freak.
    22. Não há regras: quando achares que já passou muito tempo e que mereces que a vida te corra bem, não aches. É importante não sentires que defines tu os deadlines. Porque não defines.
    23. Tem a coragem de te conheceres. É importante sabermos quem somos. E, maior parte das pessoas, não sabe. Estás disposto a lavar escadas? Consegues viver sem o fiambre no frigorifico? O que gostavas realmente de fazer com a tua vida? O tempo que tens contigo é uma oportunidade que pode não voltar. Aproveita-a.
    24. Faz uma agenda. Tenham planos e cumpram-nos! Nunca achem que o excesso de tempo é tempo a mais. Se não vão ver que afinal o tempo nunca chega. Além de que estão desempregados, não vegetais.

Escrevi 25 regras, em vez de 24. Talvez eu esteja pronta para o caso da vida não mudar já e continuar aqui.

Estou aqui há 24 meses. E vocês estão aí comigo. Obrigada por estarem

Mais Crónicas:

-->