Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2017

CRÓNICA DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON: Crónica de uma morte não anunciada

Crónica de 12 / 01 / 2016

CRÓNICA DA MÃE:

O tema de hoje foi escolhido pelo pai. Não falámos sobre isto, disse-lhe apenas que não sabia o que dizer…

A verdade é que, diabo seja cego surdo mudo perneta e atrasado, até hoje nunca perdi ninguém.

Quer dizer, morreram pessoas da família quando eu era muito pequena. E outras que eram distantes demais para alterar a minha balança emocional.

E sempre fui protegida. Porque a única vez que fui a um velório foi há 2 anos, da avó muito velhota de uma grande amiga.

Acho que sempre fui muito protegida. Ponto. Pela sorte. Pelo destino. Sabendo que, quanto mais tempo passa, mais hipóteses tenho de ser albardada pela perda…

O que diria à minha filha se ela perdesse alguém próximo? Não sei…

Sei que me lembro sempre do meu avô dizer, quando morreu a mãe dele, que não se choram os mortos. Celebram-se os vivos.

Sei que sempre tive medo da morte. O que me levou a viver sempre tudo ao máximo.

Talvez seja isso que quero passar um dia à Clara, se ela tiver esse azar.

Mas, como estas coisas não se prevêem, o que gostava mesmo era de nunca ter de lhe explicar a perda. De ela nunca ter de a ter explicada por outra pessoa – se eu partisse antecipadamente.

Acima de tudo, gostava de me lembrar das palavras do meu avô: celebremos as pessoas enquanto as temos.

Celebremos

CRÓNICA DO PAI:

Hoje fui eu quem escolheu o tema.
Mandei um sms à Patrícia onde lhe dizia “não imagino como vá escrever sobre outras merdas no dia em que perdi o Bowie”.

É que eu não sou dos que acham que a vida começa depois de ter filhos e que “muda tudo” e essas coisas.
Eu já tinha vida antes de ser pai, já tinha as minhas paixões, e os meus filhos só vieram compor o ramalhete dos afectos e aumentar o desejo de partilhar.

Posto isto, não há nada que compense a minha dor no dia em que perdi o Bowie; hoje não quero saber se o teste correu bem a uma ou mal à outra, se o dente abanou ou caiu, ou se o desenho feito na escola é para o pai ou para a mãe.

Sugeri então à Patrícia que falássemos sobre a morte, e como é que a vivemos e comunicamos às crianças.
Como tudo na vida, a subjetividade é absoluta: depende de nós, da fase que estamos a atravessar, da dimensão da dor que sentimos, das nossas crenças e da idade dos miúdos, etc. Não há verdades universais – cada um tem a sua.

E a minha verdade é que somos uns sortudos e nunca perdemos ninguém próximo, à parte de uma bisavó materna numa altura em que elas ainda eram muito pequenas.
Mas um dia morreu-nos um cão (tínhamos 3) e para mim foi uma tragédia. Era o mais novo dos 3, morreu de uma doença fulminante, sem que pudéssemos fazer nada nem sequer prepararmo-nos para o desenlace. E não sendo uma “pessoa”, era da família e tinha que se explicar às miúdas (teriam uns 5 anos) o que tinha acontecido.

E foi aí que percebi que o céu dá mesmo imenso jeito; é uma ideia tão boa que faz sentido que tenha sido inventada.

Disse-lhes que o Tintinho tinha ido para o céu dos cães e quando o fui enterrar, no monte da tia Guida onde ele tinha nascido, contei às miúdas que ele ficava ali para nos proteger à distância.
A verdade é que me estava a consolar a mim e não às miúdas. Talvez o tenha dito mais para me justificar, com receio de elas não compreenderem porque é que o pai não parava de chorar.
Aliás, para mim foi um consolo quando há uns 20 anos (antes da internet) se fez uma petição para dar o nome do Senna a uma estrela. A ideia foi de um jornal italiano, e lá se conseguiu que uma qualquer estrela do hemisfério sul, invisível a olho nu e que tinha um daqueles nome de password de wifi tipo“QP21T6R”, se passasse a chamar Senna.

Eu gosto de olhar para o céu e pensar que ele está lá em cima e que é uma estrela.

Quando bebo uns copos acredito com mais convicção, mas no fundo sei bem que o faço para me consolar.

Ainda não tive que explicar o que é a morte ao Zé nem à Joana, e a Rita e a Rosa parecem encarar a coisa com alguma racionalidade. Felizmente é tudo à distância. Ainda há umas semanas fui ao enterro do meu amigo Armando, quando cheguei a casa percebi que a mãe lhes tinha contado, e elas não fizeram perguntas nem comentários – para elas as pessoas morrem e pronto.

Ok, confesso: desta vez, apesar de ter 4 filhos, não tenho grande experiência no tema da crónica da semana – ainda bem!

Mas hoje perdi o Bowie e não me apetece falar de outras merdas.

Apetece-me pensar nos ídolos que perdi, no Bowie que toda a gente sabe que está em Marte, no Senna que está numa estrela e nos meus cães que estão no céu dos cães a roer ossos divinais.

Hoje dói-me a alma e não me apetece ser racional – vou fazer de conta que acredito que um dia me vou encontrar com os meus cães num qualquer céu paradisíaco em que as nuvens absorvem os cocós e eu não tenho que andar a eternidade toda com um saco de plástico debaixo da asa para os apanhar.
Amanhã logo se volta à realidade…

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