Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2017

CRÓNICA DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON: sexo depois dos filhos

Crónica de 20 / 01 / 2016

Sexo depois dos filhos? Qual sexo? ahahaha

Agora a sério: confesso que foi, para mim, uma questão muito complicada. E partilho porque pode ter sido também para alguém, sendo que não é um tema fácil…

Apesar de nunca ter tido uma relação pacifica com o meu corpo – peso a mais, maminhas a menos, etc etc – na altura em que engravidei estava no auge do bem-estar fisico e psicológico com o corpo e, logo, com o sexo.

Fazia muito desporto. Tinha cuidado com o que comia. Trabalhava. Ia ao cabeleireiro e depilação regularmente. E isso traduzia-se numa rapariga com auto-estima elevada. E uma (muito boa, vá) vida sexual :)

A gravidez foi também um tempo de auto-confiança. Porque apesar de engordar às resmas de quilos, continuava a fazer desporto 3 vezes por semana e as hormonas faziam-me achar que era a mais bela do mundo.

Então a minha filha nasceu. E, digam o que disserem, o parto é das coisas mais violentas da maternidade, eventualmente para nos preparar para o que aí vem!

E, a partir daí, as minhas partes baixas cosidas e em obras durante meses, os dramas do leite e das bombas de leite e de espremer as mamocas, a imagem no espelho das carnes penduradas e dos metros de olheiras tornaram muito complicado e moroso voltar a gostar de mim. E voltar a tratar o sexo por tu.

Talvez uma parvoíce, eu sei. Mas fui mãe na altura em que mais precisava de ser um bebé. E disso ninguém se apercebe pois não? Que precisávamos ser bebés quando temos os nossos bebés?

Diz que os homens se queixam de menos sexo depois dos filhos. E que as mulheres se queixam de mais trabalho, logo mais cansaço, logo menos sexo, depois dos filhos. Serão eles que não ajustam as necessidades? Ou nós que o que queremos mesmo é procriar? Não sei de quem é a culpa. Não sei sequer se ela é de alguém!

Sei que o tempo e o amor curam tudo. Amor dos outros por nós. Mas, talvez acima de tudo, amor de nós por nós próprias. E, hoje em dia, com umas banhocas a mais, e as maminhas eventualmente uns centímetros abaixo, acho que voltei a gostar de mim.

Porque, aliás, já dizia o outro anuncio célebre: se eu não gostar de mim, quem gostará? 😉

CRÓNICA DO PAI:

O que é que muda no sexo depois de ter filhos? A sério?
O tema da semana é a dor de cabeça crónica nas mulheres entre as onze da noite e a uma da manhã?
Se querem que vos diga, eu até acho que o “problema” está a montante.
Um amigo meu costumava dizer que se estás farto de ter a namorada a fazer-te sexo oral, então casa-te com ela – acaba-se logo o ritual.

Agora a sério, não acho muito normal que mude “muita” coisa.
Eu percebo que há questões hormonais que não dependem da vontade, e é evidente que as mulheres sofrem muito mais alterações nesse âmbito do que os homens. Entre a gravidez, o parto e o aleitamento, muita coisa tem que mudar no corpo e no sistema hormonal das mulheres; é apenas natural que a sua disponibilidade e/ou vontade por tudo o que não esteja diretamente relacionado com as crias diminua, e que as suas prioridades sejam reajustadas.

É assim, somos bichos.

Na natureza até encontramos casos de mamíferos que matam as crias dos outros machos, e não o fazem só para eliminar a descendência que não tem os seus genes; fazem-no porque sabem que isso acelera o ciclo do cio na fêmea.

Na natureza os bichos sabem que uma fêmea que não está a cuidar das crias é uma fêmea potencialmente mais disponível para o sexo (leia-se para procriar).
E em matéria de hormonas e de comportamento em relação às crias, as fêmeas do homo sapiens sapiens não serão assim tão diferentes de uma leoa – mãe é mãe (viram como arranjei um animal espetacular para a metáfora?).

Posto isto, e decorrido o período de adaptação à nova realidade das hormonas e das responsabilidades e tarefas próprias de quem acabou de ser pai ou mãe, o desejável é que volte tudo ao que era dantes.
É claro que há uma nova realidade: noites mal dormidas, olheiras, biberões para esterilizar, mais roupa para lavar, crianças que aparecem na cama a meio da noite, etc.

Mas ao fim de algum tempo, tudo deve voltar a uma certa normalidade; se havia hábitos de rambóia, deve voltar a haver rambóia.

E se isso não ocorrer, é porque talvez tenha acontecido alguma coisa na relação entre os pais. Ainda há vontade? Ainda há libido?

Continua a ser amor, ou passou a ser outra coisa?

Será que a relação deixou de ser amorosa e se transformou numa espécie de parceria?
Como uma sociedade comercial que tem um “objeto social” definido, que neste caso é ter uma família estruturada e criar os filhos?

Se for esse o caso, pode não ser necessariamente mau; deve é ser compreendido e assumido, para que as espectativas possam ser geridas de forma honesta entre todos.

Mas se as coisas não forem faladas, pode acabar mal. Vão-se acumulando silêncios e frustrações que mais cedo ou mais tarde tendem a manifestar-se.

Eu sou ateu mas gosto muito daquelas passagens da Bíblia do “amai-vos uns aos outros” e do “ide e multiplicai-vos”.

E se não estão com vontade de se multiplicar (eu não estou), pelo menos “ide”.

Vá, desligai a engenhoca onde estais a ler estas linhas, “ide” e “amai-vos”.

É o que manda o Senhor…

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