Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Ele abandona-me se eu não abortar

Crónica de 23 / 01 / 2016

Esta crónica foi pedida por uma mãe que, já sendo mae de gémeas, encarava a possibilidade de estar novamente grávida sendo que, o pai das filhas e namorado, disse que se o resultado fosse positivo só tinha duas hipóteses “abortar ou ele deixar-me”. O teste entretanto revelou-se positivo.

Com base nesta informação, eu e o meu pai co-escritor escrevemos a crónica abaixo:

MÃE:

Para mim, esta questão tem de ser separada em várias, mesmo que seja tudo uma história e um destino: o seu T.

Ainda vai ser muito difícil antes de ser fácil. Vai chorar muito. Sentir-se muito sozinha e abandonada. Mas, como todas as tempestades, vai passar. Não se esqueça nunca disso.

PAI DAS CRIANÇAS: quer uma pessoa seja mais ou menos bruta, mais ou menos parva, a escolha de palavras e a atitude do seu namorado não revelam nada de bom. Consegue voltar a ama-lo? A viver com ele como se nunca lhe tivesse dito essas palavras? É uma questão que tem de se por. A resposta óbvia é “não”. Mas nem sempre a vida é obvia. Pode ser o amor da sua vida, é o pai das suas filhas, pode depender dele financeiramente. Seja o que for que decidir não duvide de uma coisa: ele portou-se mal consigo. Mas, fiquem juntos ou separados terá de negociar com ele para sempre decisões importantes. Pelo que é importante saber fazer ouvir a sua voz. E, para isso, é preciso saber o que diz a sua voz. Se ele não for homenzinho suficiente para fazer o que é correcto, então até será uma sorte livrar-se dele. Na verdade, é a T. que deve pensar se quer fica com este homem e não o contrário. Mesmo que, e isso é importante lembrar, ele fará para sempre parte da sua vida por ser pai dos seus filhos. Porque ele pode virar-lhe as costas a si mas não aos seus filhos.

TER OU NÃO MAIS UM FILHO: eu defendo afincadamente a liberdade de escolha da mulher. Se, no seu intimo, sente que não consegue lidar com a hipótese de ficar com 3 filhos sozinha, então não tenha este filho. E, se for esta a razão, tenha a consciência tranquila. Dizer “onde comem 2 comem 3″ ou “com amor tudo se cria” é mais fácil que fazer. Se não quer ficar sozinha com 3 filhos, não tem porque ficar. Mas não fique é com este pai por medo de ficar sozinha com as suas gémeas. A decisão de ter ou não este filho é, eventualmente, algo até que já decidiu no seu coração. Siga o que lhe diz o seu coração. Mas siga o seu e não o de alguém que já mostrou que a deixa sozinha se as coisas não correm como ele quer.

A MÃE: não é fácil recomeçar. Não será fácil ser mãe solteira de 2 ou 3 filhos. Mas a felicidade voltará a bater à sua porta. Disso pode ter a certeza. Por isso acho que, acima de tudo, não deve agir por medo de ficar sozinha. Porque não está sozinha. Estamos todos aqui. E pense numa coisa: já não pode fechar os olhos à tempestade. Já não pode ignorar esta situação. Nem fazer de conta que ela não aconteceu. Então atravesse a tempestade de cabeça erguida, seja qual for o destino. O sol vai voltar a brilhar. Pense onde quer estar e como quer que a sua vida seja quando o mar estiver calmo outra vez.

Mas no meio disto tudo há algo que não me sai da cabeça: porque raio parece ser a contracepção sempre da responsabilidade da mulher? Não são dois a fazer amor? Não são dois a não usar contraceptivos? Porque é que parece que só um dos dois fica com a responsabilidade? Não sei o que vai fazer mas alguém tem de explicar a esse senhor: ele foi parte do problema. Não pode lavar as mãos assim da solução.

De qualquer maneira, independentemente do que ele faça, tem de pensar em si. Quer ter este filho? Tenha. A vida tomará conta de si e dos seus filhos. Não quer ter este filho? Não tenha. A vida tomará conta de si e das suas filhas. Acho que ainda vai chorar muito. Mas também ainda vai rir muito, prometo. O mais importante é que deite a cabeça na almofada e durma tranquila. Mesmo que para isso tenha a almofada ao seu lado vazia.

PAI:

Infelizmente (ou não), temo que possa não haver muito a fazer quanto à relação.
Quando um tipo diz “ou abortas ou eu abandono-te”, a relação acabou (digo eu…).
Isso pode ser sinal de muita coisa mas não me parece que seja sinónimo de amor.
Uma coisa é ele dizer que não tem a certeza de que seja boa ideia ter mais um filho nestas condições; outra coisa é ameaçar deixar-te caso não abortes.
Não será ele uma espécie de aborto?
Se vale a pena viver com essa pessoa, só tu sabes.
Mas talvez tenha chegado a hora de pensar se é possível uma separação amigável, ir à procura do mítico “amigo advogado” para dar uma ajuda com os detalhes.
Entre guardas partilhadas e pensões de alimentos, pode ser que tudo corra civilizadamente.
Podem dar jeito uns irmãos e/ou uns amigos espadaúdos para ajudarem em cobranças difíceis se a coisa correr menos bem…
Quanto à decisão de ter ou não mais um filho, essa é demasiado íntima para eu me atrever a dar ideias.
Se tens condições emocionais (e socioeconómicas), só tu é que sabes.
Eu nem sei que idade têm os gémeos, se já podem ajudar ou não, se tens empregada interna ou se fazes tudo sozinha, se passas o dia no shopping e no jogging ou se tens que aguentar dois empregos para sustentar a casa…
A única coisa que posso dizer é que depois de ter gémeos, ter um só filho é canja.
Been there, done that.
Ter gémeos dá uma tal estaleca que depois cuidar de um filho é uma brincadeira de crianças.
Mas eu vivi a experiência de ter gémeos e depois o 3º e ainda o 4º mas sempre com pai e mãe a dividirem as responsabilidades.
Ter 3 sozinha deve ser obra…
Mas tu sabes que não é a situação financeira nem o trabalho que dá mais um filho nem o fim ou a degradação da relação que vão decidir de forma taxativa se queres ou não esse filho.
Isto não é um quiz de verão em que respondes a umas questões para chegar a um resultado claro.
Só tu sabes se ter esse filho nas tuas condições faz ou não sentido para ti – é um misto de razão e de emoção.
À partida ninguém tem um filho só porque sim, da mesma forma que ninguém interrompe uma gravidez de ânimo leve.
A única coisa que te posso dizer é que para mim tu és a maior, seja qual for a decisão que tomares. Seja qual for o teu rumo, vais ter que ter um tipo de coragem que raramente é exigida aos homens.
Tu tens o direito de decidir quantos filhos queres ter, tal como eu.
E ninguém tem puto a ver com isso…

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