Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2017

CRÓNICA DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON: maus exemplos

Crónica de 27 / 01 / 2016

MÃE

Eu sou muito suspeita para escrever sobre este tema: eu sou a pessoa mais informal que conheço… Quer dizer, não dou puns em público – pelo menos não assumidamente, vá – nem arroto à mesa. Nem gosto de ir ao WC com a porta aberta. Mas tudo o resto, de uma forma geral, para mim “está-se bem”.

Limpar o ranho à camisola? Sou a primeira a faze-lo.
Limpar a boca com a mão? À falta de guardanapos vou limpar com o quê?!
Deixar cair comida em cima da cabeça da minha filha? Check.
Esquecer de lavar as mãos antes de ir comer? Check.
Deixar apanhar “cenas indefinidas” do chão? Check.
Comer com as mãos?
Dar festinhas em animais?
Rebolar pelo chão da rua
Dizer “caraças”, “caneco”, “os gajos”?
Lanchar sempre no chão? De casa ou da rua?
Por maquilhagem e verniz das unhas?
Check.
Check.
Check.
Check.
Check.
Check.

Sim, tudo isto são coisas que faço enquanto mãe. Por isso quando a Clara diz alto e em bom som: “É caraças! Cum caneco!” E eu rio-me alto.

Ainda ontem, íamos as duas na rua quando eu, doente há uma semana, tenho um aceso de tosse e cuspo para o chão. Ela nunca tinha visto tal coisa. Parou a olhar para mim. Com aquela curiosidade de quem pensa: “esta ainda não aprendi!” Olhei à volta. Não estava ninguém. Então expliquei-lhe que só se faz quando se está doente. E repeti. Para ela aprender a fazer.

Muitas pessoas dirão “blargh” à sujidade e “que falta de educação” ao palavreado.

Mas, para mim, ser mãe é ensinar-lhe tudo o que a sociedade espera dela. E tudo o resto que ela pode fazer quando ninguém está a olhar. É dizer-lhe como se deve portar. Mas mostrar-lhe como se pode divertir para além disso. É dizer-lhe que o mundo é maior que a sociedade. Que o comportamento não se divide só em bom e mau.Que entre o deve e o haver existe a brincadeira. E a palhaçada. Que em casa podemos fazer coisas que não podemos fazer na rua. Que a fronteira do permitido e não permitido pode ser flexível.

Que espero eu com esta cambada de maus exemplos que lhe dou? Espero que ela seja muito mais do que só o que esperam dela. Que não se resuma a um menina bem comportada. Que faça as coisas que quer sem medo de retaliações. Que respeite os outros sem deixar de ser ela própria. Qe veja na mãe uma onda flexível em vez de um muro rígido.

Espero que que ela aprenda comigo a cumprir as regras. E que também seja comigo que ela aprende a quebra-las. Acima de tudo espero que a palavra que está lá sempre é mesmo esta: comigo. No bom e no mau.

E sei que o trabalho não está mal feito. Sabem porquê? Até há pouco tempo atrás ela dizia alto e em bom som: “a mamã deu um pum!” E agora já percebeu que essa é uma das coisas que guardamos só para nós. O próximo passo é que guarde so para ela :)

CRÓNICA DO PAI:

Vou contar-vos um segredo: eu não gosto muito de crianças. A sério.
Se vou na rua e for uma criança num passeio e um cão no outro, sou gajo para atravessar e ir fazer uma festa ao cão.
A menos que o dono do cão seja um gadelhudo qualquer e a mãe da criança seja bem gira. Nesse caso… bom, nesse caso vou na mesma fazer a festa ao cão porque ele se empina e me dá uma lambidela enquanto a mãe gira nem repara que eu sorri para o petiz.
Na família havia miúdos com verdadeira vocação para brincar com os primos mais novos mas eu nunca fui um desses. E quando alguém saca do telemóvel para me mostrar fotos do bebés ou vídeos fofinhos, eu tenho que esboçar um sorriso e esforçar-me para mostrar que acho aquilo mesmo giro.
A cria do homo sapiens sapiens não me comove muito. Se estiver a ver o National Geographic derreto-me com as outras crias; do leãozinho ao jacaré acabado de sair do ovo, todos são giros – mas o bebé do bicho homem diz-me pouco.
Vamos lá a ver, eu gosto das crianças com as quais tenho laços, ok?
Gosto dos meus filhos, gosto dos filhos dos meus amigos, gosto dos amigos dos meus filhos e por aí fora. Não tenho é o dom de gostar universalmente de crianças. Mais facilmente trabalharia no zoo a apanhar toneladas de caca do elefante do que num infantário a ajudar a mudar fraldas de crianças que não conheço – vá, mandem-me fuzilar.
Isto dura até hoje mesmo depois de ser pai de 4 crianças que, à vez, são adoráveis e inaturáveis.

Há uns alguns anos, uns bons anos antes de ser pai, assisti a uma cena linda no velhinho estádio de Alvalade.
Umas filas à minha frente estava um tipo com muito bom aspecto: alto, magro, loiro de olhos verdes, porte altivo e um ensebado verde de bom corte – parecia saído de um filme sobre o bom-gosto inglês, e cheguei a pensar que podia ser o embaixador do Reino Unido. Ao seu lado estava um miúdo com uns 8 ou 10 anos.
Nesse jogo o Sporting estava a ser particularmente roubado; somos roubados frequentemente mas em Alvalade costumam ter um pouco mais de pudor. Mas dessa vez não – estávamos a ser roubados à grande.
A bancada estava em alvoroço, estava muita gente em pé, ouviam-se louvores ao árbitro, mas aquela parelha pai/filho mantinha uma compostura impecável – eram aliás dos poucos que permaneciam sentados.
Mas às tantas, por causa de um penalty ou de um fora de jogo – já não me lembro, o homem passou-se, perdeu as estribeiras e pôs-se de pé a esbracejar e aos berros, esquecendo por segundos o rapaz que estava ali ao lado.
Entre um “ladrão” e um “gatuno”, lá percebi que aquela fleuma britânica era afinal portuguesa.
E o rapaz, vendo o pai naqueles preparos, puxou-lhe o casaco e perguntou com candura:
– Pai, também posso?
O pai, ternurento, pegou nele ao colo, colocou-o de pé em cima da cadeira e respondeu:
– Podes, mas não dizes nada à mãe.
E o miúdo lá se pôs a gritar “bandido” com a sua voz esganiçada.
No final o Sporting lá ganhou, e eles saíram do estádio de mão dada.
Foi das cenas mais ternas e cúmplices a que assisti – uma coisa de rapazes.
Nesse dia percebi, pela primeira vez na vida, que talvez fosse giro ser pai.
Confirma-se…

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