Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

CRÓNICA DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON

Crónica de 02 / 02 / 2016

MÃE:

Até há uns anos atrás eu era, correctamente, apelidada de ciumenta. Ex-namoradas. Colegas de trabalho. Revistas picantes. Mulheres com quem nos cruzávamos na rua. Tudo, para mim, carecia de um olhar meu mais atento, para ter a certeza que dali não vinha perigo ao mundo.

Até há uns anos atrás eu era tola.

Mas quem não quer olhar para um gajo/gaja gira numa revista? Ou alongar os olhos num site com alguém mais risonho que o vizinho do autocarro?

Mas esta é a parte fácil. As revistas e internet. (Só dão ciúmes a quem está muito mal resolvido, ou tem um gajo que anda mesmo a saltar a cerca).

Depois vêm as colegas e ex-namoradas. Façamos já um parênteses para assumir que sim, que haverá algumas situações mais dúbias. Tirando todas essas, minhas senhoras, sejamos sinceras: porque será apenas o homem o criminoso?

Confesso que acho as mulheres um bocado sonsas nisto. Nós pomos saltos altos. Maquilhagem. Calças justas e soutiens push-up. Somos super simpáticas para o colega giro que se cruza sempre connosco no elevador.

Além de que, há sempre alguém que, no nosso passado, no nosso presente, ou em Hollywood, nos dá aquele frisson que nos torna repentinamente mais doces, cativantes ou até semi-envergonhadas. Então porque é que nós podemos e eles não?

Já dizia o outro, uma coisa é uma coisa, uma outra coisa é uma outra coisa. Quer isto dizer que largávamos tudo e corríamos para os braços desta pessoa? Não. Que nos envolveríamos numa relação tórrida e picante à hora de almoço? Que trabalheira. Que gostamos que gostem de nós? Sim. Que não somos cegos? Não. Que da atracção fisico ao envolvimento fisico e/ou emocional vai uma grande distancia? JACKPOT!!!!

Na parte que me toca, posso-vos dizer que sempre gostei de ser simpática, ou uma flirter social, chamemos-lhe assim. Ter uns quilos a mais sempre me obrigou a puxar doutros galardões para fazer amigos. Mas também porque não são estes os sinais de perigo. Em mim, pelo contrário, os sinais de perigo normalmente até envolvem eu ser tímida, desajeitada e taralhoca.

Mas ao sabermos que nos sabe bem a nós, sabemos que pode saber bem ao outro. E, também já diz o ditado, quem tem cu tem medo. E quem tem uma relação de que gosta tem medo de a perder. Às vezes meramente em excesso para a mamalhuda da capa da revista.

CRÓNICA DO PAI:

Atrações durante o relacionamento? Flirts no local de trabalho? Hum…
Agora é que vocês vão perceber que eu sou um triste e nunca mais vão querer ler-me. Esta parceria estava a correr tão bem, e agora vai pelo cano; mas pelo menos a culpa é da dona da casa (leia-se do blog).
É assim: nestas coisas eu sou um nerd do pior – sempre fui.
Nunca percebi nada, mas mesmo nada, dos códigos de sedução entre rapazes e raparigas. Sou uma abécula, uma nulidade, sou todos os nomes que me quiserem chamar.
Não escrevo isto para me vangloriar de um pudor que nem sequer tenho; quem me dera a mim ser um Casanova ou pelo menos um trolha fofinho que fosse – não sou.
A verdade é que não tenho a mais pequena ideia de como é que essa magia funciona.
Quando era mais novo e saia 7 noites por semana com os amigos, ficava sempre impressionado com a forma como eles se “safavam”. Eu cá nunca me safei.
Acreditem que não tenho orgulho nenhum nisto.
Os meus amigos conseguiam estar a beber copos comigo e a seduzir uma miúda na outra ponta do bar; às tantas deixavam-me pendurado e eu via-os a falarem com uma recém-conhecida como se fossem velhos amigos. Sempre achei isso fascinante mas nunca percebi como funcionava, apesar do esforço dos meus amigos para me ensinarem.
Tive bons mestres nessa arte, acreditem – eu é que fui sempre um discípulo de uma mediocridade confrangedora.
E eu sou um tipo altamente sociável, de riso fácil e que adora conhecer pessoas.
Mas nunca fui capaz de dirigir a palavra a uma desconhecida, e acho sempre que mesmo que o conseguisse fazer não teria nada de interessante para lhe dizer.
Não, eu não sou um marido exemplar e estruturalmente fiel. Sou apenas um banana; um merdas, se preferirem…
Se os seguidores deste blog estivessem todos numa festa com uma vontade tremenda de se comerem uns aos outros, eu nunca iria perceber. E mesmo que alguns se começassem a despir, eu ia achar que era por causa do calor porque 20.000 pessoas numa discoteca é capaz de ser gente a mais – não sei ler “sinais”.
Passa-se o mesmo no local de trabalho. Às vezes ouço conversas daquelas de juntar casalinhos mas eu nunca vi, nunca percebi, nunca antecipei.
A menos que encontre o Antunes do economato a pinar a Sandra do contencioso às 10 da noite em cima da fotocopiadora, eu acho sempre que as pessoas são mesmo só “colegas”.
Já sei no que é que estão a pensar: “colegas são as putas”; sim, mas eu acho mesmo que as pessoas são só amigas até lhes ver o linguadão em público na festa de natal da empresa depois de uns jarros de sangria a mais.
Ainda por cima tenho a (des)vantagem de ser um tipo meio “invisível”. Se fosse o tipo de rapaz a que as miúdas acham graça, provavelmente já tinha sido “alvo” de uma tentação alheia e eu próprio poderia ter-me sentido tentado – quanto mais não seja por sugestão. Perceber que alguém nos acha piada deve ser uma sensação bestial. Mas como sou transparente e ainda por cima sou o tipo que tem 4 filhos, nunca tive a sorte de ver uma colega ou amiga a fazer-me olhinhos.
Bom, mas se alguma miúda me fizesse olhinhos eu ia achar que era uma conjuntivite ou uma outra alergia qualquer – é o mais provável.
Nem sei bem o que é mais triste no meio disto – se o facto de não me fazerem olhinho se o facto de saber que provavelmente nem o chegaria a perceber.
A única coisa notável no meio disto é que consigo escrever mais de 3000 caracteres sobre um assunto que me passa ao lado.
Pelo menos sou bom a encher chouriços.
Escrevo-vos isto também com o propósito de me excluir de qualquer princípio de puritanismo: se algum(a) de vós já caiu em tentação, não vou ser eu seguramente a julgar-vos porque eu também não sei como reagiria se tivesse tido essa oportunidade.
Mas amanhã, enquanto vocês vomitam esta crónica e a Patrícia inventa uma desculpa elegante de me dispensar, acho que vou tentar fazer coincidir a minha pausa para o café com a da nova miúda da contabilidade que veio substituir a grávida – vou fazer de conta que percebo imenso de “cenas” a ver se finalmente arranjo lenha para me queimar…

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