Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2017

CRÓNICAS DE UM TACO DE BASEBOL FORRADO A NAPERON: A INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ

Crónica de 16 / 02 / 2016

MÃE:

Este tema é, irritantemente para mim, um tema polémico. Porque para mim não há polémica: uma mãe que não deseja ter um bebé, deve ter o direito de não o ter.

Sim, não vou falar de todas as outras situações, onde a mulher não quis mas perdeu. Vou falar daquelas que ela não quis.

Quando eu nasci a minha mãe tinha 17 anos. O que significa que, se fosse minha filha ou fosse hoje em dia, a probabilidade de eu não existir era muito grande se toda a gente pensasse como eu.

Estou perfeitamente ciente disso. Mas para mim há algo muito claro: o importante das discussões não é ganhar ou perder, ter argumentos de peso ou mesmo toneladas. O importante das discussões é trazer luz para temas difíceis.

E é neste sentido que não tolero argumentos do género: “Ah! Então és a favor de matar vidas inocentes!” O que sou mesmo é a favor de pessoas acéfalas ou que só pretendem espezinhar quem pense diferente sejam sugadas para um esgoto cheio de cocó, isso sim eu sou a favor!

Voltando à questão: para mim, uma mulher tem o direito de não ter um filho se não se sentir preparada para o ter.

“Então e os pais?” De facto, infelizmente, não têm o mesmo direito.
“Então e isso é justo?” Não. Mas a História e a estatística mostram que é, na esmagadora maioria dos casos, a mãe que toma conta dos filhos até eles ganharem asas e voar.
“Então e passa a ser uma opção como ir ao cinema?” Não deve nem devia. E qualquer pessoa que trate este assunto por “tu” sabe que nenhuma mulher o faz de animo leve.

Mas deixem-me trazer para a discussão algo que parar mim é mais importante que opiniões: informação.

Enquanto estudava Psicologia em Londres, entre 1997 e 2001, o tema da interrupção voluntária da gravidez foi abordada. A Inglaterra tinha – e felizmente ainda tem – um acesso gratuito a uma interrupção voluntária da gravidez. Mas. na altura, achavam que o numero de jovens que recorria ao mesmo era preocupante.

O nosso estudo passou por comparar com outro país que também oferecia gratuitamente a interrupção: a Noruega. E, o que se via na Noruega é que a educação sexual fazia parte do verso dos chocolates e sumos, dos bolos e bolachas, e de mais outros quantos apetrechos a que os jovens gostam de aceder sem achar que dali vão levar um “sermão”. Mas que, por ser inocente, lhes pode dar uma lição.

Na Noruega as jovens continuavam a aceder ao serviço. Mas em menor numero que em Inglaterra. E esta era a mensagem do meu professor universitário já em 1997: mantenha-se a liberdade. Dê-se mais educação.

Como vêm, não é uma posição de países retrógrados. É, sim uma posição de pessoas retrógradas achar que um mundo onde se castram liberdades é um mundo melhor.

Assina, a rapariga que podia não ter nascido.

PAI:

A propósito da Interrupção Voluntária da Gravidez, quero como ponto prévio assumir-me como um fervoroso militante pró-vida. Acho que outra coisa não seria de esperar de um “pai de 4”…

Perante um aborto, a primeira questão que se nos coloca, enquanto sociedade, é:
“O que fazer com uma mulher que aborta?”
E chegados aqui, só temos duas opções:
1 – Consideramos o aborto um crime e agimos judicialmente contra as mulheres que o fazem.
2 – Optamos por não criminalizar o aborto (independentemente do juízo moral que cada um poderá fazer do acto em si) e não agimos judicialmente contra a mulher.
A primeira decisão a tomar é, portanto, prendemo-las ou não?

Antes de decidir, convém não esquecer que as mulheres que abortam não são resíduos estatísticos – são pessoas. E algumas são provavelmente nossas conhecidas.
Não existem dados concretos que nos digam qual a percentagem de mulheres que realiza um aborto ao longo da vida – não é fácil.
O aborto, seja o recente e legal, seja o “antigo” e clandestino, é feito em silêncio e às escondidas – não é uma coisa de que se fale em família na noite de Natal ou ao fim de uns copos no casamento do primo.
Li algures que no Brasil se estima que 1 em cada 5 mulheres pratique um aborto ao longo da vida. Não sei se o número é fiável e muito menos ainda se por cá será parecido ou não; mas sei que mesmo que reduzíssemos esse número para metade (só para sermos conservadores), seria 1 em cada 10 mulheres. E mesmo que assumíssemos 1 em cada 20 ou 1 em cada 50, todos teríamos sempre alguém próximo (ou muito próximo) para mandar para a cadeia.
Por essa razão, quem se propuser criminalizar mulheres por prática de aborto é bom que esteja preparado para prender a própria mãe, a irmã, a tia predileta ou a prima favorita com quem subia às árvores no quintal da avó. Pode até ter que mandar prender retroativamente a própria avó…
Quem não tem a certeza sobre se devemos ou não criminalizar o aborto, devia tentar responder honestamente à pergunta: seria eu capaz de denunciar a minha mãe ou a minha irmã por prática de aborto, se isso fosse crime?
Eu jamais seria…

Chegados aqui temos uma segunda questão para responder:
“Se uma mulher decidir abortar, onde deverá fazê-lo?”
E mais uma vez temos apenas duas opções:
1 – Num estabelecimento de saúde autorizado onde são asseguradas a sua integridade física e a integridade do seu aparelho reprodutor.
2 – Num sítio qualquer sem que ninguém certifique as suas condições, com risco para a sua vida e/ou para a sua fertilidade futura.

Quando uma mulher decide na sua intimidade que vai abortar, acabará por fazê-lo; se vamos acabar por “perder” a vida desse feto, ao menos que tentemos assegurar duas coisas: a vida da mãe e a funcionalidade do seu aparelho reprodutor para que mais tarde possa vir a ter os filhos que entender mais tarde.
Nós até podemos ter estatísticas sobre as mortes de mulheres resultantes da prática de aborto clandestino. Mas nunca saberemos quantas mulheres ficam estéreis na sequência de abortos realizados sem condições médicas. Não perdemos só as mulheres que morrem, perdemos também os bebés que nunca irão nascer porque as suas “mães” não tiveram acesso aos cuidados médicos que deviam.

Quando uma mulher decide abortar acabará por fazê-lo. E nós, enquanto sociedade, podemos encaminhá-la para um hospital ou para um vão de escada.
O aborto existe independentemente da nossa vontade, e ninguém gosta dele.
No fundo não há pessoas pró-aborto e pessoas anti-aborto.
Há pessoas a favor do aborto legal e medicamente assistido, e pessoas a favor do aborto clandestino e punitivo, com risco para a vida e para a saúde da mãe.

Como escrevi no início da crónica, sou um fervoroso militante pró-vida e é por essa razão que defendo que a interrupção voluntária da gravidez deve ser legal, virtualmente gratuita, e realizada num estabelecimento de saúde autorizado, com equipamento e pessoal médico qualificado – isso é que é defender a VIDA!
A vida da mãe e dos filhos que ela quiser ter no futuro.

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