Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2017

Está certo dizer "a MINHA mulher"?

Crónica de 23 / 02 / 2016

CRÓNICA DA MÃE:

Para mim, o feminismo não é o sentimento exaltado que se vive hoje nos centros urbanos (em Portugal, leia-se). Isso para mim é moda.

Para mim, o feminismo foi o que vi algumas mulheres fazerem no tempo da minha mãe (que não foi assim há tanto, eu sei mas torna tudo muito diferente): pagar caro pelo preço de ter direito a opções.

Divorcios. Tabaco. Emprego. Liberdade politica. São tudo escolhas que as mulheres que conheço pagaram caro para poder ter. Mas quiserem ter.

O resto são feminismo da moda. Para mim, claro está.

Mas sendo eu uma rapariga que tem e teve acesso a liberdade de escolha (e também a pagar os preços das minhas escolhas) desde muito cedo, sou uma rapariga que se dedica às vezes a esse feminismo urbano.

E, portanto, no meio de uma conversa com o Fernando onde ele diz “bla… bla… bla… a minha mulher…bla… bla… bla…”

Eu respondi-lhe que não, ela não podia ser mulher DELE. Podia ser esposa. Namorada. A melhor amiga. Amante. Mulher não era DELE. Porque continuaria a ser mulher se eles se separassem.

O meu argumentou ganhou ainda mais força, para mim claro está :), quando ele me perguntou se eu não falava de o MEU marido.

Ora marido é oposto de esposa. Homem é que é oposto de mulher. Por isso dizer que um é marido a outra é mulher estava a acender todas as luzes da minha arvore de natal mental feminista.

Atenção, já gostei muito de dizer que sou de alguém ou alguém é meu. De identificar o outro no facebook ou assumir lá a nossa relação. De passear de mãos dadas. De ser DELE e ele MEU. Mas isso foi antes. Antes de pensar que, na verdade, ninguém é de ninguém e o amor não precisa de rótulos.

Voltemos ao tema.

Acesa a minha arvore de natal de argumentação de “Ó Fernando, não aceito esse argumento a não ser que a tua esposa – “não somos casados” diz ele – companheira, então, concorde!

Responde o Fernando, ateu (certo?) convicto: “mas quando as pessoas se casam não é o que diz o padre? Logo está certo!”

Foi quando percebi que estávamos oficialmente em discussão. E pensei: “por todos os soutiens que não queimei, vou levar esta discussão até ao fim! Ou só até ele assumir que eu tenho razão :)

Disclamer: para a escrita desta crónica ninguém se zangou, insultou ou deixou de falar. Continuamos amigos. E não fosse a conversa do padre talvez até lhe desse razão :p

CRÓNICA DO PAI:

Uma das ferramentas que qualquer pessoa deve dominar minimamente para ir sobrevivendo a uma relação consiste na arte de saber avaliar que guerras vale a pena travar.
E esta é, manifestamente, uma daquelas que não justifica o esforço.
Se a “senhora” quer que eu a apresente em público como “a minha mulher”, assim seja.
Se preferisse “namorada”, por mim era na boa.
Se optasse por “companheira”, engolia em seco e chamava-lhe isso.
Se gostasse mais de “esposa” dizia baixinho enquanto fingia que tossia, mas chamava-lhe esposa.
Se ela não quisesse dar confiança e escolhesse a designação genérica de “mãe dos meus filhos”, eu franzia o sobrolho e apresentava-a dessa forma.
Se ela preferisse “a minha gaja” eu deixava crescer o bigode, enfiava um palito na boca e… seja feita a sua vontade
Se ela fosse gulosa e quisesse que eu a apresentasse como Torrão de Alicante ou Ferrero Rocher, eu esbugalhava os olhos mas cumpria.
Se a criatura quisesse ser apresentada aos meus pais como “boião de Nutella”, ficam a saber que eu até gosto de Nutella, ok?
Eu chamo-lhe o nome que ela quiser.
Who the fuck cares…
É claro que esta subserviência não quer dizer que eu não tenha sentido crítico; apenas decidi não gastar energias com essa minudência, e felizmente nem foi preciso.
Para mim palavra “esposa” é como, sei lá… gonorreia. É uma expressão que eu sei que existe no dicionário mas não uso porque me deixa mal disposto.
Também abomino “companheira” porque não estamos em 1975 e já nessa altura soava pessimamente.
“Namorada” acho fixe e dá um ar jovial e onírico à coisa mas para quem vive há 20 anos com a mesma pessoa pode soar a falso.
Felizmente a minha mulher quer que eu a apresente por “a minha mulher” o que facilita bastante as apresentações.
Há coisas em que estamos de acordo…

Vamos agora ver a história por detrás da utilização do termo “minha”.
Sim é verdade, no dicionário “minha” é considerado um determinante possessivo.
Mas isso não quer dizer que exista uma ideia de posse/propriedade de cada vez que dizemos que algo é nosso – muitas vezes é exatamente o contrário.
Quando eu me refiro a um objecto, é claro que estou a assumir a posse. Eu troco SMS’s com a Patrícia com o MEU telemóvel.
Mas se eu me referir a um ser vivo, por exemplo a minha cadela, sei que ela não é propriedade minha, é responsabilidade minha. “Minha” não indica posse, indica uma cadeia de obrigações e responsabilidades.
Passa-se o mesmo com os filhos. Quando a Patrícia se refere à Clara como “a minha filha” não a está a reduzir à condição de porta-chaves.
Onde eu digo “minha filha” ela diria “meu pai”; não há uma posse unilateral, há uma relação bilateral.
A coisa pode até ir mais longe e transformar o suposto dono da posse em (quase) alvo de posse.
Quando me refiro a uma entidade e digo orgulhoso que Lisboa é a minha cidade, não me estou a assumir como dono dela, pelo contrário.
Quando eu digo que Portugal é o meu país ou que o Sporting é o meu clube, não estou a afirmar-me como dono deles – pelo contrário, estou a afirmar uma sensação de pertença que é precisamente o contrário da posse.
Aliás, eu posso dizer que “sou” do Sporting ou de Portugal da mesma forma que o meu telemóvel diria (se pudesse) “eu sou do Fernando”.
Muitas vezes, quando dizemos “meu”, não estamos só a dizer que o outro é nosso, estamos também a dizer que nós somos do outro.

Eu digo a minha cidade e o meu país e o meu clube e a minha cadela e os meus filhos. E não sou dono de nada.
Por isso faz-me sentido dizer “a minha mulher”…

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