Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

O que fizeste quando soubeste que ias ser pai?

Crónica de 03 / 03 / 2016

MÃE:

O que leva uma mulher a comprar um teste de gravidez? A verdade é que sabemos que algo se passa connosco. No meu caso, era o excesso de emoções que já não fazia sentido. Nem para mim que já sou sempre do género temperamental! :)

Durante o dia, disse à minha amiga Liliana, que trabalhava comigo, eque nesse dia ia comprar um teste. Cheguei à farmácia às 18.59 e – sendo que estavam obviamente aberto se não não tinha entrado – disse-lhes que não podiam fechar porque precisava de comprar um teste de gravidez.

Eu sou pessoa que não ligo se é homem ou mulher quando me atendem na farmácia, seja o que for que me levou lá (preservativos, pílula, creme para o herpes – que não tenho -, whatever!) Mas naquele dia procurava alguma condolência, alguma resposta numa pessoa que, coitada, apenas era farmacêutica e não vidente!

Mas faltava um minuto para a farmácia fechar e a única coisa que a farmacêutica queria era despachar-se daquele dia (já éramos duas…) e portanto deu-me o teste como quem me vende um ovo kinder: a surpresa vem lá dentro, não sei de nada!

Cheguei a casa e fiz o teste. Qual ler bula qual quê. Fazes xixi na cena e a cena diz-te o que tem a dizer. Já nem traços traz (o que me parece maravilhoso porque no meio dos nervos lembrar-me-ia lá se eram 1 ou 2 traços o que queria???!! E que queria eu?!! Não sabia…). E lá estava a cena explicita: grávida 2-3.

O que pensei? Pensei tanta coisa…. Pensei que precisava de fumar um cigarro e agora não devia. Pensei que me apetecia um copo de vinho e não podia. Pensei que se de repente já não podia nada do que me apetecia, isso não queria dizer que se tinha acabado toda a liberdade e diversão da minha vida!

Tudo o que vos vou contar agora não contei ao pai da Clara por esta ordem: a ele contei-lhe que lhe liguei a seguir a fazer o teste. Mas a ordem de eventos foi outra. Porque gaja é gaja e precisa de falar com gajas quando os assuntos são sérios! Esta é a verdadeira ordem de acontecimentos:

Enviei um SMS à Liliana a dizer: “tem bebé”. Sim, “tem bebé” foi a frase que saiu a esta mulher com licenciatura e mestrado: “tem bebé”… (tem, o teste percebem? o teste tem bebé…enfim… útero e cérebro não conseguem mandar ao mesmo tempo, toda a gente sabe…)

Fumei um cigarro (há-de ser pior eu morrer de nervos! pensei) e depois liguei à minha melhor amiga. “Tens de vir lá jantar a casa” – disse. “Mas… mas… já não posso beber nem fumar!” – disse eu. Ela, sábia mãe de duas crianças disse “não é um copo e um cigarro que fazem mal, e se só tivesses descoberto amanhã? Precisas de ter uma vida normal, anda.” Era música para os meus ouvidos porque era, afinal, o que eu queria ouvir: que a vida não tinha mudado da noite para o dia.

“E como te sentes?” perguntou-me ela. “Sei lá…” “Sentes que queres essa criança independentemente do que acontecer?” Parei para pensar… “Sim… sim!” e a certeza que, no fundo, já morava dentro de mim, saiu, mais uma vez, nas mais simples palavras.

(A história retoma agora a versão oficial :))

Liguei ao pai da Clara e disse-lhe que precisávamos falar. Algures entre as minhas excessivas alterações de humor e o facto de que quem anda à chuva molha-se, ele já adivinhava o que lhe ia contar. Não ficou surpreso. Nem tentou disfarçar. E isso deu-me uma enorme tranquilidade. Precavido como é, – para não dizer preocupado :p – perguntou logo quando íamos fazer uma batelada de exames, como íamos organizar o nosso dia-a-dia quando ela nascesse e mais alguma coisa que eu não ouvi.

Não ouvi porque, tal como há algo que nos diz que estamos grávidas, há algo que nos diz que tudo vai correr tudo bem. E eu sabia que, mesmo entre um homem precavido e uma mulher temperamental, tudo haveria de correr bem.

(Este dia ficou também marcado pelo dia em que a minha avó me ligou a dizer que tinha novamente um cancro de mama e que tinha de tirar o segundo peito. Para ela, a noticia de que ia ser bisavó ficou adiada)

PAI:

Não me lembro bem do momento, confesso.
Posso sempre alegar em minha defesa que, ao fim de 4 filhos, esse momento se diluiu no meio dos outros.
E não foi seguramente uma coisa muito onírica – a “novidade” deve ter acontecido na casa de banho que é o local onde tradicionalmente as senhoras fazem chichi para cima de aparelhómetros de testes de gravidez…

Como a gravidez tinha sido planeada e a menstruação estava atrasada, não foi propriamente uma surpresa.
Não desatei a correr pela casa a gritar GOLOOOOO como às vezes faço por outros motivos.

Mas lembro-me do momento em que soube que ia ser pai outra vez, até porque foi na mesma gravidez e dessa surpresa eu não estava de facto à espera.
Eu estava no escritório, era um dia normal, e a mãe tinha ido à primeira consulta fazer a primeira ecografia.
O nosso adorado Dr. Reis Faria disse-lhe no gozo “- Vamos lá ver quantos são”, e passados uns momentos, disse num tom mais sério: “- Eu estava a dizer aquilo a brincar mas de facto estão aqui 2.”
A minha mulher ligou-me mas por alguma razão não vi a chamada.
Depois ligou à sua irmã, e eu recebi uma chamada da minha cunhada.
Essa chamada eu vi, mas não atendi; a sério, olhei para o ecrã do telemóvel e não me apeteceu. E ainda bem que não atendi porque era ela a dar-me os parabéns e se eu tivesse atendido tinha sabido que eram gémeos pela voz da minha cunhada.

Depois lá devolvi a chamada à minha mulher e recebi a novidade: afinal era uma gravidez gemelar e ia ser duas vezes pai.
Foi fixe.
Lembro-me de ter ficado muito feliz com a novidade.
Ser pai era uma coisa que me estava a apetecer, mas sê-lo duas vezes tornava tudo muito mais estimulante e raro.
E ser pai de gémeos apresenta desafios que os outros pais e mães nem sonham.
Não é só a trabalheira que dá (e que vocês não imaginam sequer) – é também o desafio na educação e na ajuda à construção de personalidades distintas de dois mamíferos que têm muita coisa em comum, desde logo toda a carga genética.

Aqui o palhacito tratou logo de arranjar piadolas sobre o excelente negocio que tinha feito porque conseguia ter 2 filhos e pagar apenas 1 parto.
E comecei a fazer alusões parvas estabelecendo uma relação causa-efeito entre o meu extraordinário desempenho sexual e o facto de serem 2 bebés, apesar de serem gémeos monozigóticos e ter ocorrido apenas a fecundação de um óvulo.
Enfim, a tristeza do costume.

E quando elas crescerem mais um pouco vou explicar-lhes que podem cometer crimes e encobrirem-se porque, como têm o mesmo ADN, e nunca será possível provar “beyond the reasonable doubt” de quem era exatamente o cabelo encontrado na cena do crime.

Ah pois é, isto dos gémeos tem mesmo muita piada.

P.S. Esta crónica é dedicada a todas as mães de gémeos do meu adorado grupinho de Facebook “Grupo de Gémeos”, e em especial para a Sara que isto de ser mãe de quadrigémeos é mesmo só para Ultra Mega Giga Super Mulheres!

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