Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O corpo ideal da mulher

Crónica de 09 / 03 / 2016

MÃE:

Não gosto do meu corpo. Nunca gostei. Transportei para a alimentação muita da minha gestão de stress. Tenho um metabolismo chato. As maminhas mais pequenas do que gostava. Os quilos maiores do que idealizava.

Durante muito tempo toda esta imagem de mim foi maquilhada com muita atitude, e algum sex appeal. Ironicamente, ninguém desconfia que uma mulher que se apresenta charmosa e segura de si, possa ser insegura.

Não gosto do meu corpo. Mas sempre gostei de liberdade. E por isso transpus para o meu corpo marcas dessa liberdade na forma de tatuagens, piercings e outras impressões que fui querendo deixar no corpo. No meu corpo.

A questão do corpo da mulher é complexa porque, de alguma forma, o corpo da mulher não é dela.

Começa logo na anatomia, visto ser um corpo feito para dar à luz, onde todos os órgãos se apertam e encolhem para dar espaço a uma criança, onde a pele dilata e estica, o coração bombeia mais rápido, e o sangue corre milhares de vezes mais rápido que o normal.

O corpo da mulher não é da mulher. Foi, durante muitos anos e ainda é, usado na publicidade para vender tudo desde roupas a carros e revistas, para homens ou mulheres.

E, por mais que se pudesse tirar a conclusão de que todos gostam do corpo da mulher, não as podemos tirar quando ainda vivemos num mundo onde, pelo corpo das mulheres não ser das mulheres, sociedades inteiras violentam o corpo das mulheres sob a forma de mutilação genital, violam e estrupiam jovens que viajam “sozinhas”, ou apedrejam outras que não seguiram a religião “certa”.

O corpo ideal de mulher é aquele que é dela. Para ela fazer o que bem entender. É o corpo que deixa de vender produtos do consumismo barato. É o corpo que tem tatuagens, ou fez interrupções voluntárias da gravidez, ou tem estrias ou as mamas descaídas. É o corpo que tem aquilo que quiser, sem que ninguém interfira.

Eu nunca gostei do meu corpo. Mas é meu. E, com o tempo, percebi que, afinal, é perfeito. Porque com ele posso tudo. Posso correr, viajar, ou amar. E posso ser mãe.

Que mais podia alguém querer de um corpo?

PAI:

O corpo ideal da mulher é, literalmente, aquele que eu tiver à minha frente.
A versão trolha deste princípio pode resumir-se na ideia de que não sou esquisito com a comida – posso gostar de tudo.
Mas a verdade é mais profunda do que isso.

No que às relações com corpos diz respeito, eu não tenho tido uma vida especialmente interessante – já a propósito de outros temas o escrevi e fi-lo sem nenhuma ponta de orgulho – não sou puritano nem púdico.
Mas também não era preciso ser como o Mick Jagger que, reza a lenda, foi para a cama com mais de 4.000 mulheres. E agora que morreu o topo dos Motorhead fala-se em 1.000 amiguinhas o que também é imponente. Eu nunca tive esse tipo de ambições megalómanas.

Fui contemplado com tão poucas possibilidades de partilha de corpos que me deixei sempre esmagar, antes de mais, pela magia da entrega.

Eu acho sempre notável que a mulher entregue/partilhe o seu corpo. E por essa razão, o simples facto de essa partilha de extrema intimidade acontecer sobrepõe-se a tudo o resto.
As medidas passam para segundo plano; tanto se me dá 86-60-86 como outra coisa qualquer.
O que o que eu quero é amar e ser amado – tudo o resto, incluindo a escultura de que vou desfrutar, é apenas um detalhe. É importante, mas é detalhe.
A entrega é substantiva, o corpo é adjectivo.
É evidente que, em abstracto, eu tenho as minha preferências.
Se estiver num sítio qualquer a lavar as vistas, há corpos de que gosto mais do que de outros; há mulheres que à vista me atraem mais do que outras.
Mas se por milagre uma delas chegasse a estar nua à minha frente, os preconceitos e os gostos pessoais seriam sempre substituídos pela curiosidade de descobrir aquele corpo.

Vamos imaginar que eu gosto de mamas grandes – acham que isso me impedia de me enamorar por umas pequeninas que me fossem oferecidas para mimar?
Vamos imaginar que eu gosto de miúdas magras – acham que isso me impedia de me apaixonar por umas curvas que me fossem generosamente disponibilizadas para percorrer?

Do que eu gosto mesmo é precisamente da generosidade da entrega.
O genial é dar (e receber).
Do que eu gosto mesmo é do “aqui me tens”.
Bom, se calhar, se eu tivesse tido uma vida mais animada, talvez me tivesse transformado num tipo mais esquisito com direito a ter preferências.
Mas como sou só isto, prefiro de longe a generosidade entrega à ideia de perfeição do corpo.
Para mim o corpo ideal é aquele que tiver ali à minha frente, a pedir que o ame, seja por uma noite ou por uma vida.
Para mim, qualquer mulher que se entregue generosamente e com vontade é uma fortíssima candidata a mulher com “o corpo ideal”.
O resto é photoshop e fotos de revistas…

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