Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Agenciamento de Blogs

Crónica de 14 / 03 / 2016

DISCLAMER: as pessoas mais sensíveis devem passar para a palavra/expressão entre-parenteses sempre que virem um asterisco (*)

Há muuuuuito, muito tempo atrás, eu achava que ter um blog era para quem tinha algo de muito importante a dizer. Mas era, de alguma forma, revolucionário, e portanto usava canais alternativos.

Depois de ser mãe, e ter mais tempo livre do que quando trabalhava, comecei a escrever, algo aliás que sempre gostei de fazer. E toda a gente me dizia: “porque não começas um blog?” ainda com as hormonas em alta, pensei “porque não? O pior que me pode acontecer é ninguém gostar do que escrevo!”

Esta, para mim, é a questão chave de ter um blog: importaste que não gostem de ti?

Como tinha acabado de ser * enrabada (desculpem… abusada analmente!) pelos meus supostos sócios que me haviam prometido uma injecção de capital durante toda a gravidez, e me deixaram na mão depois de ser mãe, pensei: “Bah, pior que isto não pode acontecer! Bora lá avançar com o blog!”

Mentiria se dissesse que nunca acreditei que podia ganhar dinheiro com ele. Ou até mesmo que sonhei em ganhar bom dinheiro com ele! Mas também mentiria se dissesse que nunca acreditei que o George Clooney me tocava à campainha porque tinha furado um pneu aqui na rua! Isto para dizer que há uma linha que separa o impossível do possível mas praticamente impossível. O George Clooney desenha essa linha :)

Em 2 anos trabalhei com 2 agências. Ganhei 0 euros. Zero. Mas, verdade seja dita, uma vez ofereceram-me 12 euros para colocar um banner de * cremes pró cu (pessoas sensíveis, lembraram-se de não ler certo? cremes para o rabinho!)

E lembro-me de ter pensado: “porra o meu blog é tão bonito, agora ter um banner de cremes para o rabo por 12 euros? ok que é um rabo de bebés… mas não é isso igual a eu vender o meu por 12 euros?! ” Se ao menos pagassem mais talvez a consciência não me pesasse e, nesta altura, teriam já vocês milhares de banners e pop-ups no meu blog de cremes para o cu, rabo, cara, borbulhas, fraldas de jovens e velhos e o diabo a sete!

Claro, porque no meio disto tudo a dignidade tem, muitas vezes, um grande inimigo: a falta de dinheiro.

Agora estes senhores esqueceram-se que eu, por mais fácil que seja verem-se só assim, não sou só um útero que passou a vida à espera de parir. Eu sou uma gaja que já negociou orçamentos e projectos de valores que talvez nunca tenham visto.

Pelo que, o comentário “agora pagamos isto, no futuro (talvez o creme de cu se gostar de ti) venha a pagar mais!” só tem uma resposta possível: “O creme do cu na cara do meu blog nunca valerá 12 euros nem que seja o ultimo creme de cu à face da terra!”

Mudei de agência. Para uma que estava a começar. Até falámos no skype e apresentei-lhes a Clara e tudo. Acho que foi a primeira e última vez que falámos. Comecei a ver a lista de blogs deles a engordar. Pessoas que eram, acima de tudo famosas, tinham agora um blog! Acredito que possam ter muito a dizer. O que não acredito é que os cremes dos cus lhes paguem 12 euros.

E, muito provavelmente, nem sequer acredito que maior parte deles/as escreva os seus próprios posts. Mas também, quando se ganha 50% dos 12 euros do creme de cu, até se escreve um post sobre qualquer tema não?!

Comecei a irritar-me. É que eu acredito que somos todos iguais. E trato todas as pessoas igual. O senhor do banco ou o senhor que varre a rua. A senhora XPTO de unhas de gel ou o senhor XPTO que todos os dias vai à pesca às 5AM: SOMOS TODOS IGUAIS!

Portanto quando passados 6 meses me enviam um email a dizer que temos de assinar um contrato, “já assinámos!” respondo eu, e a marcar reuniões às quais não respondem quando digo “posso às 3PM e vocês?” enquanto o rol de blogs que representam aumenta, especialmente na notoriedade dos bloggers caiu-me a ficha: “queres ver que o creme do cu agora sou eu?!”

Muitas vezes tenho a conversa das métricas com o F., que liga a quantas pessoas gostaram ou leram o que publicamos. Deixem-me que vos diga a conclusão a que cheguei: quem escreve, tem que escrever porque gosta de o fazer, não porque teve cem, mil ou zero gostos. Um pouco como discutir o Big Brother versus a RTP 2, percebem? Pode só ler uma pessoa. Mas essa pessoa estar a precisar tanto daquele texto que mudaste o dia dessa pessoa. Como quando escrevemos sobre a interrupção voluntária do aborto.

Esta é uma das conclusões que queria deixar aqui: se têm um blog, escrevam porque querem. Porque gostam. Não porque têm alguém que vos paga para ter banners de cremes do cu (até já me esqueci do asterisco…) se tiverem mais likes! Um pouco como tudo na vida não? Sim, pelo menos para mim…

A outra conclusão é que devíamos, como um todo, deixar de apoiar sangue-sugas. Queres que o teu blog tenha o apoio de uma marca? Vai atrás dela! Queres a tua marca associada a um blog? Fala com a pessoa!

50% do vosso trabalho é muito dinheiro, mesmo que o vosso trabalho seja creme do cu para algumas pessoas.

Preferem ter mil pessoas a dizer-vos que gostam do vosso creme do cu ou 100 a dizer que gostam de vocês?!

Fica a dica.

Ah! mas como aqui ainda mando eu, fica lambe´m mais uma coisa para todos aqueles que maltratam as pessoas que confiaram neles: .|.

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