Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Dizer NÃO. Quem consegue?

Crónica de 15 / 03 / 2016

MÃE:

Reza a lenda, que é como quem diz, diz a minha avó, que quando eu era pequena e me perguntavam o que queria ser quando crescesse respondia “mãe”.

As crianças sabem-la toda e eu lá sabia que ser mãe ia ser o que eu mais viria a gostar de fazer/ser na vida.

Ser mãe aos 37 tem algumas vantagens: somos mais pacientes, já realizamos parte dos nossos sonhos, já não nos irritamos facilmente.

Mas nada na vida é preto ou branco e, por isso, ser mãe aos 37 também algumas desvantagens: podemos ser pacientes demais, abdicar demais de nós, irritar-nos de menos…

Durante uns meses eu era a mãe mais derretida do mundo. Mas somos todas assim, acredito, pelo menos durante 1 ano, não? :)

E lembro-me como se fosse hoje das palavras da pediatra na consulta de 1 ano: “Parabéns, a Clara chegou até aqui bastante saudável. Até aqui foi fácil. A partir de agora é preciso educar.”

Algumas vezes pensei que a minha filha ia ser daquelas crianças monstras que gritam e esperneiam se o canal de TV não tem o que elas querem, ou choram e se atiram ao chão se as coisas não são como elas querem.

Temi isto porque eu não sabia dizer não. Bom, até a coisa começar a ser importante pelo menos :)

Depois começou a haver comida a voar pelo ar, encontrões à TV e canetas de feltro destapadas em cima do sofá. Entre outros…

Deixem-me dizer-vos que sou muito a favor da disciplina positiva e da educação pelo amor. Mas, para mim, há uma máxima muito antiga que nunca foi suplantada: respeitinho é bonito e eu gosto! (E outra que não vem nos livros mas sente-se na pele: quando és tu a limpar, não os deixas fazer tudo!)

Comecei a usar o não. Um tau-tau na fralda se a coisa for feia. Ou uma voz mais alta se a coisa ainda não for feia mas para lá caminhar. E, portanto, entre descontos e saldos permanentes a alguns comportamentos não aprovados mas parte do crescimento, existe, ocasionalmente, uma reacção que mostra que ali há um limite.

Se me custa? Depende. Custou-me muuuuuuuito com a comida, por exemplo. Há meses que luto com o peso da Clara e com a certeza de que tenho que lhe mudar a alimentação. Pois o peso dela reflecte acima de tudo o meu erro na alimentação dela. Ao principio só lhe dizia que “não” à comida. E não é fácil negar comida a uma criança! Com o tempo fui procurando soluções. Para transformar o meu não numa alternativa saudável para que pudesse, ao invés, dizer : “e que tal optares antes por isto?”

Dúvidas tivesse que dizer “não” é importante, a minha filha, essa sábia, de vez em quando desata numa gritaria de “PORQUE EU QUEEEEEERO! EU QUEEEEERO!” para me lembrar que, dizer-lhe não, é das maiores obrigações de uma mãe.

(Eh pá e confesso que se consegui dizer não a comida, quando chegar a altura de dizer NÂO às roupas da Berska e dos iPhones vai ser a coisa mais fácil do mundo :p )

PAI:

Dizer “não” tem motivações diferentes numa família com muitos ou com poucos filhos. Digo eu que já tive só 2 filhas, e hoje tenho que gerir as expectativas de 4 crianças.
À partida o “não” é uma palavra fundamental – sem ela as crianças não aprendem onde ficam os limites.
Pode servir para traçar limites : “não podemos ir jantar fora sempre que nos apetece porque não temos dinheiro”, ou “não podes descer as escadas a saltar à corda porque é perigoso e podes esbardalhar-te”
E também pode servir para castigar: “não te deixo porque te portaste mal”.
Mas estes são os lados bons do “não”, aqueles em que a negação ajuda a construir a sua personalidade e a estabelecer as fronteiras entre o que se pode e não pode fazer.

Mas numa família numerosa, o “não” tem uma carga muito mais dura de gerir para os pais – a da indisponibilidade.
Numa família numerosa, o “não” é quase sempre um mini-abandono, explicado e justificado, mas ainda assim um abandono.
Numa família numerosa, 80% dos “nãos” são o assumir que “o pai não pode”, “a mãe não consegue”, “agora não é possível”….
E só quem tem uma família numerosa sabe o que é não poder delegar, simplesmente porque é matematicamente impossível atender a todos quando eles precisam.
Quando se tem “só” um ou dois filhos, é muito mais fácil fazer turnos: um brinca enquanto o outro trata do jantar, um ajuda nos TPC’s enquanto o outro dá banho, etc….
Com quatro? Não, dá pá; com quatro não dá porque quando são quatro está sempre alguém a precisar de atenção mas nunca há mãos suficientes para atenderem a tanta solicitação.
E como “não dá”, o “não” é a resposta.
Em minha casa, a maior parte dos meus “nãos” não lhes ensinam nada nem estabelecem fronteiras – estabelecem apenas os limites da minha permanente (in)disponibilidade.
É fácil dizer não a uma criança que se portou mal: “não vais ver televisão porque estás de castigo”.
Mas é uma merda dizer “não” a um filho que se portou bem e só queria brincar um bocadinho com o pai – porque o pai tem que estudar com as manas, ou dar banho à outra mana, ou porque o jantar não aparece na mesa por milagre.
Admito que muito desse peso se passe sobretudo nas nossas cabeças de pais, e gosto de pensar que o facto de terem mais irmãos compensa estas “ausências” dos pais.
Mas odeio passar a vida a dizer-lhes “o pai agora não pode”. Porque numa casa com quatro crianças, vai-se rodando mas o pai nunca pode para pelo menos três delas.
E mesmo quando se consegue operar o milagre de dois ou três até quererem a mesma coisa, logo aparece o quarto a dar cabo da unanimidade.

É por isso que fico fodido (o termo é este) quando vou ao jardim, tenho uma a pedir para empurrar o baloiço, outra a pedir para jogar à bola, um a pedir para andar de skate, outra a pedir para eu lhe tirar umas fotos, eu a ter que dizer “não” a três deles, e ver papás e mamãs com um filho que brinca sozinho porque os papás têm que estar a olhar para o ecrã do telemóvel – devem ser todos corretores na bolsa de Tóquio e precisam de estar sempre on-line…
E fico ainda mais fodido quando conseguimos estar um bocadinho a brincar à mesma coisa, por exemplo a jogar à bola, e aparece um puto a perguntar se também pode jogar connosco porque o papá ou a mamã dele acha que o Jardim da Estrela é o melhor sítio do mundo para estar no engate on-line.
E eu percebo que uma criança que vê os pais agarrados ao telemóvel e ao lado vê uma família fixe a brincar, vai a correr ter com a família fixe.
Não é que me custe dividir a brincadeira com mais um, mas cada vez que passo a bola ao puto desconhecido é menos um passe que faço a um dos meus filhos, e eu só tenho meia dúzia de passes para distribuir por semana.
É um bocadinho que era só nosso e que deixa de ser só nosso. E eu sei que esses “bocadinhos” de harmonia familiar às vezes duram apenas breves instantes.
Porque quando chegarmos a casa, cada um vai ter a sua solicitação, vão começar as suas guerras, e eu vou ter que eleger uma prioridade e dizer que não aos outros três: não, o pai agora não pode.
E depois de um gajo se matar para tentar ir apagando os fogos que consegue, ainda ouve alguém a dizer “- oh pai, tu nunca podes!”.
E têm razão.

De vez em quando, alguém que não nos conhece diz com entusiasmo: “Uau, tens quatro filhos? Isso lá em casa deve ser sempre uma festa…”
Não sei; daqui a vinte anos perguntem aos miúdos se foi uma festa…

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