Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

A mãe ameaça e o pai castiga? Mitos e verdades

Crónica de 29 / 03 / 2016

MÃE:

Como mulher, tenho várias opiniões: a de mãe, mas também a de filha, neta, sobrinha e por aí fora. Ou seja, tenho várias fontes de informação.

Mas isso não é um problema porque todas apontam para o mesmo: os homens têm problemas com a assertividade. Parece uma palavra cara. Mas não é. A assertividade é aquela coisa que permite descrever as coisas. Ah, agora já faz sentido não é? :)

Ou seja, não se pode castigar sobre algo que nunca se explicou o porquê. E, às vezes, explicar o porquê significa perder tempo a conversar (outra coisa a que a maioria dos homens tem uma alergia de morte, equivalente à mordida de uma píton…)

Agora se me disserem: “mas as mulheres não se calam! Beka, bela, Beka, bela, sempre a explicar e a ameaçar mas castigar está quieto!”

Sim, talvez nós mulheres invistamos mais tempo a conversar do que o necessário. A explicar aos filhos pela milésima vez porque não podem, porque o preferimos a espetar-lhe um acoite ou chamar-lhe um nome feio (para dentro chamamos vários, não se preocupem).

Exemplo prático: é uma seca explicar à Clara três mil e quatrocentas vezes por dia que deve tapar as canetas pra elas não se estragarem. Mas a hipótese é dar-lhe três mil e quatrocentos gritos e/ou palmadas. E eu cá prefiro guardar esses para coisas importantes. Que existem, tenho provas! Por exemplo, ainda hoje lhe cheguei a mão à fralda porque ela me levantou a mão. E, para mim essa é a linha: o aceitável do inaceitável. E eu consigo viver com as canetas destapadas. Não consigo viver com a ideia da minha filha levantar a mão a alguém quando se sente desagradada.

Mas sabem que mais? Quantas guerras são começadas por mulheres? E, quando são, não ganham sempre?

I rest my case :)

PAI:

As generalizações geram sempre potenciais injustiças.
Ainda assim, a realidade demonstra-nos que na maioria dos casos as mães são mais chegadas aos filhos.
Imagino que na maior parte dos processos judiciais por falta de pagamento da pensão de alimentos seja o pai quem se balda.
E todos conhecemos vários casos em que, por causa de uma separação, o pai acabou por ir desaparecendo da vida dos miúdos; será que conhecemos muitos casos semelhantes em quer a mãe, com o passar do tempo, se foi evaporando da vida das crianças?
A relação da mãe é mais antiga e mais física – começa 9 meses antes e envolve uma gravidez (e eventualmente aleitamento) que são cenários de intimidade extrema que o homem jamais imaginará.
E se ligarmos a TV no National Geographic, o que vemos na maior parte dos casos são as mamíferas a cuidarem das crias enquanto os papás foram à caça ou partiram para novos engates. É claro que nós não somos apenas animais, mas é sempre bom lembrar que também não somos apenas produtos da sociedade e que por muito que nos sofistiquemos continuaremos a ser bichos…

Posto isto, reparo que cá em casa quando eles se portam mal e é necessário impor um castigo, eu estou (quase) sempre muito mais disposto a levar a proibição até ao fim; a mãe é mais facilmente sensível ao levantamento antecipado de sanções.
E lembro-me bem de ter amigos no liceu cujas mães mentiam aos maridos sobre as verdadeiras (más) notas dos filhos para os pouparem aos castigos da praxe.
Por acaso eu até tive a “sorte” de nunca ter levado um tabefe do meu pai. Mas ainda assim, no meu imaginário, é mais fácil imaginar um pai a pregar uma tareia num filho do que uma mãe. As tristemente famosas tareias com o cinto eram infligidas pelo pai (e não pela mãe) e a besta tanto podia descarregar em cima dos filhos como das filhas (e eventualmente da mulher também).

Bom… de tanto falar em tareias e em castigos até fiquei mal disposto.
Mas estes casos de disciplina mais radical e física (e estúpida) servem de metáfora para ilustrar que pais e mães provavelmente “educam” de forma diferente.
Podem até ter o mesmo propósito. Qualquer pai ou mãe que não seja psicopata quer é que os seus filhos sejam felizes. Mas podem tentar chegar lá por caminhos diferentes…
Os homens e as mulheres são diferentes – é apenas natural que eduquem de forma diferente, de preferência que seja de forma complementar.
À parte disso, há homens belíssimos que são excelentes pais, sejam os biológicos ou não.
No Dia do Pai derreti-me com um post de um amigo meu no facebook que começava com a frase “O meu pai, que por acaso é o meu padrasto, entrou na minha vida quando eu tinha 13 anos…” – achei aquilo lindo.
E derreto-me quando oiço o “Carrie and Lowell” do Sufjan Stevens porque o disco é dedicado à mãe e ao padrasto. Discos dedicados à mãe há muitos; ao padrasto só conheço este.
Pode parecer que não tem muito a ver com o tema, mas depois de evocar tareias de cinto, estava a precisar de acabar num tom optimista para o papel dos pais.

Mais Crónicas:

-->