Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Casar ou não casar?

Crónica de 05 / 04 / 2016

MÃE:

Toda a vida tive a certeza: casar? Jamais!

Para mim, casar era algo que se fazia para assegurar (sim, sim a palavra está certa) o amor e não porque se tinha a certeza dele.

As pessoas casavam antes de partilharem vida. Antes de partilharem casa. Às vezes até antes de partilharem o corpo! (Gostava de fugir à piada fácil do “não se compra nada sem experimentar” mas não sei se há melhor ilustração da coisa…)

As pessoas casavam, gastavam o que tinham e o que não tinham – até porque quem pagava eram os pais, padrinhos, tios, avós e outros – convidavam os sobrinhos-netos-do-tio-avô da terrinha – que só voltariam a ver no dia do funeral do tio-avô – vestiam roupas impensáveis de voltar a usar, penteados de 10 horas de produção e pronto, e comiam como se fossem os Reis da Prussia. E pronto: estavam casados.

Era, para mim, isto o casamento e portanto eu fugia disto a 7 pés.

Com o tempo vivi, presenciei e apercebi-me que, algumas pessoas fazem exactamente o contrário: casam-se depois de se amarem (filosófica e carnalmente), depois de se conhecem nus, com gripe e com problemas. Casam-se porque, depois de tudo o que pode correr mal, ainda escolhem ficar um com o outro.

Neste casamento eu alinho. E aí sim, alinho verdadeiramente à gaja: a idealizar uma série de detalhes. Gostava que fosse na praia, principalmente com amigos. Gostava de coisas esvoaçantes. Brancas, sim. Não pela suposta virgindade (se nem a virgem o era…) mas pela pureza que o branco traz. Cerveja, vinho, gin, whatever. Comida ainda mais whatever.

Ah! Há uma coisa que não podia faltar: aquele brilho nos olhos de quem não está à aventura. Mas tem a certeza de que aquele momento já estava de alguma forma escrito que fosse acontecer.

Muita fantasia não? Talvez. Mas também vos digo algo: se o amor não for fantasia, então para quê vive-lo?

PAI:

É pá, não.
Casamento, para mim, não.
Para ser franco, já fui muito feliz em casamentos de amigos, e até acho que a ideia de juntar os amigos e a família e prometer “para sempre” faz sentido.
Gosto da festa, dos copos, da exaltação da amizade que acompanha os copos, gosto disso tudo.
Mas confesso que também gosto do “SOL” no meu Cartão do Cidadão – é o único resquício do puto Fernando que lá está, porque a idade e a foto não deixam mentir.
E se calhar, daqui a uns anos, a altura vai começar a diminuir para reforçar a ideia de que o puto já se foi…
Aquela abreviatura de solteiro, que tem a felicidade de redundar numa palavra linda, sol, é o que me resta da minha identidade original.
E assusta-me um bocado a irreversibilidade da perda desse estatuto.
Um casado pode divorciar-se e voltar a casar, pode enviuvar e voltar a casar, pode andar para trás e para a frente no espectro dos estados civis disponíveis ao sabor das marés.
Sabem o que vos digo?
Glória a Elizabeth Taylor nas alturas!
Mas o “solteiro”, uma vez perdido, não se volta a recuperar.
Por outras palavras, uma vez perdido o estatuto de puto, não se pode voltar a ser puto. E no meu imaginário, eu com 45 anos sou um puto; mas um miúdo de 30 que esteja casado é um tipo entradote.
Isto pode ser sinal de infantilidade, de imaturidade, e de outras coisas acabadas em “idade”.
Admito que sim.
Mas eu ainda acho que o meu estado civil me dá alguma graciosidade. É como se o meu BI dissesse que eu ainda estava por estrear, e isso quer dizer que temos a vida toda pela frente.
Não me estou a ver a abdicar desse imaginário.

À parte disso, eu não gosto da instituição “casamento” – posso reconhecer-lhe a importância, mas não gosto.
Há coisas em que sou picuinhas…
Eu percebo que do ponto de vista da organização social o casamento faça sentido para reforçar a segurança jurídica do contrato. É preciso evitar que alguém mantenha dois casamentos em simultâneo, é preciso evitar consanguinidades, é preciso assegurar bens, sucessões, etc.
Mas o notário que celebra a cerimónia é um representante do Ministério da Justiça, é um representante do Estado. E eu confesso que embirro com a ideia de meter o Estado no meio da intimidade do casal – pelo menos da minha.
É um bocado como se o noivo fosse pedir a mão da amada ao futuro sogro, obtivesse a aprovação, e a seguir fosse perguntar ao Sr. Ministro se podia mesmo casar, se estava tudo conforme os regulamentos.
E em matéria de vida íntima, eu estou-me nas tintas para os regulamentos.
Não me levem a mal mas para eu quiser ficar com uma miúda, pergunto-lhe a ela – não pergunto ao Sr. Ministro.

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