Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Filhos e sofrimentos

Crónica de 12 / 04 / 2016

MÃE:

Tive uma gravidez santa. Mas desde o primeiro dia que nasceu, que ter um filha tem sido sinal de sofrimento. Mas deixem-me ser justa: a culpa (nem sempre) é dela :p

Bom, foi neste primeiro dia. Mas a partir dai nunca mais foi. Eu sofro se ela sofre. Sofro se eu sofro com medo que ela sofra. Sofro se ninguém sofre mas com medo que venha a sofrer. Sofro pelo futuro. Sofro pelo que hei-de sofrer. Sofro porque… sofro! Às vezes mais parece uma novela da TVI esta porcaria!

Mas, verdade seja dita, pelo menos para mim mãe, a Clara é o melhor e mais eficaz analgésico que conheci na minha vida! Ora se não veja-se:

– depois dela nascer, toda costurada, cosida e colada, lá andei eu para trás e para a frente toda contente

– quando fui operada de urgência à apêndice, fugi do primeiro hospital onde estive internada porque demoraram horas a ver-me (horas que eu não estava com a minha filha, leia-se) e só não fugi do segundo hospital, onde fui operada, porque me prometeram operar de forma a eu ir para casa logo no dia seguinte

– sempre que a gripe entrou lá em casa e contagiou toda a gente, eu salvei-me. Estava protegida pelo anti-vírus da maternidade :p (aquele anti-vírus que te diz que se ficares doente tens na mesma de fazer tudo então é melhor não ficares ehehehe)

– E assim que fatiei metade do dedo fiquei a magicar como conseguia acabar o almoço da minha moça sem a mão direita e com o dedo à baila. Porque aquilo foi à hora de almoço e a minha bebuska ia ficar com as horas alteradas!

Isto para dizer que ser mãe é sofrer por tudo. E por nada. E por tudo e por nada!

Mas ter filhos é também ter o melhor analgésico do mundo. E talvez isso os perdoe de tudo

PAI:

Em bom rigor, ser pai é um sofrimento tremendo. Sofre-se muito.
Sofremos por nós e por eles…
De vez em quando ainda recebo sms’s da Hugo Boss e do Olivier, numa altura em que até para ir à Primark ou ao McDonalds é preciso fazer contas – e sofro com isso. A constatação de que já se viveu mais à vontadinha lá em casa deixa-me sofrido.
Já não tenho mãos para contar as coisas que gostava de fazer e que não posso porque o dinheiro é a dividir por 6 e não por 2.
Depois temos o sofrimento por causa do sofrimento deles.
Sofremos com as febres, com as dores de dentes, com as indisposições, com tudo o que os afecta.
E apesar de lá em casa ser tudo gente saudável, como são 4 volta e meia aparece uma ou outra maleita que me deixa, por osmose, em sofrimento.
Poucas coisas doem mais a um pai do que ver os filhos a chorarem por causa de uma dor verdadeira (que com as de fita e de mimo lido eu bem).
Adorava poder sugar-lhes as dores, ficar-lhes com as otites e essas merdas – dá cá que eu fico com isso…
Também sofremos com as injustiças de que eles são alvo, incluindo as vezes em que fomos nós quem foi injusto com eles.
Seja o encontrão abrutalhado que levaram na escola, seja o raspanete da professora que pensou que eram eles quem estava a conversar quando não eram, seja o castigo que lhes aplicámos só porque naquele dia a nossa paciência se esgotou mais cedo do que devia.
E sofro por não lhes poder dar/comprar o que gostava. Tenho sempre a justificação de que eles são 4 e por essa razão é natural que os amigos filhos-únicos possam comprar mais coisas. Eu nunca seria um pai esbanjador mesmo que tivesse dinheiro, não é a minha cena, e elas já compreendem a situação. Mas não deixa de ser em sofrimento que lhes digo que não a coisas que estão muito longe de ser um luxo…
Como se não bastasse, a nossa autoestima de pais também sofre.
Por exemplo, durante a apresentação do nosso livro no Porto, o Zé e a Joana decidiram que aquela Bertrand era um ginásio e que podiam gritar, correr, dar cambalhotas e fazer pinos enquanto decorria a apresentação.
O que fazer:
Opção 1 – ignorar e passar por pai negligente e responsável pela (des)educação de dois selvagens;
Opção 2 – interromper a apresentação, pedir-lhes para pararem e passar por pai desacreditado a quem os filhos desobedecem ostensivamente;
Opção 3 – chegar lá, pregar uma galheta a cada um e passar por pai Neanderthal que resolve tudo à bofetada.
Eu escolhi a 1, mas fosse qual fosse a opção escolhida, passaria sempre uma imagem um bocado… sofrível.
Por outro lado, as coisas ainda estão suaves porque eles ainda são pequenos.
Ainda estamos longe das noitadas, dos exames que decidem a vida, das boleias com amigos que provavelmente estão com os copos, dos fins-de-semana fora e dessas coisas todas que deixam o coração de pai a… sofrer.
Isto só vai piorar.
A verdade é que a vida de pai é uma vida de indesmentível sofrimento.
Se me arrependo e preferia voltar atrás, para o tempo em que não sofria tanto o coração mas sofria mais o fígado?
Claro que não.
Estão parvos?!?!

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