Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

A morte, num dia de domingo.

Crónica de 18 / 04 / 2016

Ontem cheguei a casa tarde, mas de barriga cheia de um fim-de-semana de família, amigos, comida, bebida e, claro, Clara :)

Fui ver as noticias na transversal, que é como quem diz ler o facebook a correr até porque afinal ja eram 23.30

Morreu o Eduardo, no meio de uma prova de atletismo. Tinha 49 anos e deixa 2 filhos e a esposa. Era primo direito do meu pai. Quer perdeu pai e mãe antes dos 12 anos. Era meu primo também portanto. E foi quem, na minha primeira corrida, me empurrou Avenida da Liberdade acima, quando as forças me faltaram, me controlou o pulso e me disse “não olhes” quando passámos por um senhor estendido no chão que me pareceu estar morto.

Caiu-me tudo ao chão. O meu coração ficou uma ervilha. Também se morre assim?! Do nada?! Num dia de domingo normal?!

Toda a minha vida tive receio da morte. Não receio dela, mas receio que ela chegasse. E isso foi sempre motor para viver mais, experimentar demais, provar de tudo, querer fazer de tudo. O céu era o limite pois eu tinha medo que hoje fosse o último dia.

Depois fui mãe. E continuei com receio da morte. Mas passou a ser diferente. Pois tudo o que me pudesse fazer arriscar perder tempo com a minha filha, passaram a ser actividades dispensáveis e, dessas sim, passei a ter medo.

Nunca fui de medos. Nunca tive medo. Mas tenho, hoje em dia, um medo intrínseco, profundo, que vai até às entranhas do meu ser de perder o crescimento da minha filha, de não estar com ela, de um dia desaparecer e ela não saber porquê.

Porque vos conto tudo isto?

Porque o Eduardo era um homem que inspirava muita gente e acredito que vos possa inspirar a vocês.

E para vos lembrar que estão cá hoje. Parem. Respirem. Lembrem-se que estão vivos. E que hoje devem ir para casa amar os vossos como se fosse o ultimo dia. Porque pode, de facto, ser.

Mas, perante a inevitabilidade da morte, tenho umas palavras de um sábio, o meu avô, para partilhar convosco: a morte celebra-se em vida. Celebrem os vossos vivos.

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