Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Cartão do... da...do e da... cida.. cidada quê?!

Crónica de 19 / 04 / 2016

MÃE:

Ora bem, eu normalmente não discuto temas óbvios. E não os discuto por uma razão: se são óbvios, é porque terei de os discutir com quem não percebe o óbvio. Como porque se deve aprovar a adopção por casais homossexuais. Ou o casamento entre os mesmos. Ou a eutanásia. Ou a legalização da interrupção voluntária da gravidez. Etc, etc.

E não discuto estes e outros temas óbvios por uma simples razão, ilustrada, sempre tão bem, nos ditados populares: não discutas com um estupido pois ele ganha-te em experiência. (ou qualquer coisa parecida com isto).

Mas isto de ser cidadã numa sociedade onde cada vez há menos respeito por nós também leva a alguma vontade de discutir temas óbvios, mais não seja para tentar demonstrar que se é para andar aqui a discutir postas de pescada, então também podemos ir nós para deputados em vez de simples pagadores de impostos!

Não me vou demorar muito nesta questão: acho que é sempre importante discutir a questão da mulher, sem duvida, somos dos países da OCDE onde a violência contra mulheres e crianças é mais lata e onde a desigualdade no acesso a cargos elevados é mais vincada.

mas quanto ao cartão do e da e da e do cidadão e cidadã e o raio que a parte – vou plagiar algo que li por ai na internet e dizer:

Tenho uma ideia! Porque não chamar-lhe BILHETE DE IDENTIDADE???!!!

PAI:

Acho que a malta se habituou de tal forma ao estatuto de inferioridade da mulher que estas questões da igualdade de género deixaram de nos importar.
Até eu, que tenho a mania de que sou um liberalão igualitário, tive uma reação adversa e preconceituosa quando ouvi falar na iniciativa de substituir o “cartão do cidadão” pelo “cartão de cidadania”.
Fui na maré e achei que era uma parvoíce, que as palavras em Português têm género e que é assim mesmo, que os promotores da iniciativa legislativa não têm mais nada para fazer, que deviam pôr mais tabaco, que o País tem coisas mais importantes com que se entreter, etc.
O rol das bocas do costume.
Mas depois apanhei-me a pôr a loiça na máquina (que é o momento do dia em que penso) e achei que não.

Em primeiro lugar é evidente que a mudança do nome do documento de identificação está longe de ser uma prioridade – mas também é evidente que os Países não resolvem apenas os problemas de absoluta sobrevivência.
Não é por haver carências na Saúde e na Educação e na Justiça, etc. que deixamos de tentar tapar os buracos das estradas, de servir croquetes nas recepções das nossas embaixadas ou de meter combustível nos aviões da Força Aérea.
Um País é uma realidade complexa que exige que se tratem milhões de assuntos ao mesmo tempo, e em que não estão todos na mesma ordem de prioridades.
Se só fosse razoável abordar um tema prioritário de cada vez, a estas horas ainda estávamos a discutir se o mais importante era ter água canalizada ou eletricidade em casa…

Quanto ao novo nome do documento de identificação, admito que na altura ninguém se tenha lembrado disso. O documento anterior era o “bilhete de identidade” e tinha um nome neutro – é natural que ninguém tenha pensado nas consequências de lhe mudar o nome.
Mas chegados aqui, só tenho uma consideração a fazer:
Faz tanto sentido uma mulher ter um Cartão de Cidadão como faria sentido um homem ter um Cartão de Cidadã.
Não faz puto sentido, é parvo.
Vá, não tinham pensado nisso mas agora mudem lá o nome à tranbiqueta.
Pode voltar a ser Bilhete de Identidade, ou mudar para Cartão de Identidade, Documento Único, o que vos apetecer…
E se houver por aí muito marmanjo incomodado com esta iniciativa legislativa, façam um “Cartão de Cidadã” só para eles.
E da próxima vez que um desses machos ibéricos indignados for a uma conservatória por causa da casa, espero que lhe baralhem a concordância de género e conste da escritura “João Manuel Silva, proprietária do imóvel, titular do Cartão de Cidadã nº…”.
Muita gente acharia normalíssimo.
Mas eu não…

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