Crónicas das Maternidade

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Autoria de Patrícia Costa
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2018

Sucesso Escolar

Crónica de 03 / 05 / 2016

MÃE:

Ainda não tenho a minha pequena na escola o que me permite escrever de um angulo espectacular: o angulo da teoria.

Mas já fui filha e penso que é o melhor ponto de partida para uma mãe.

Sempre fui boa aluna. Mas digo-vos que sinto que comigo falharam redondamente: nunca era bom o suficiente:

– tiveste um 4? Se te tivesses empenhado podias ter tido um 5!
– tiveste um 5? Ora ai está, não fizeste mais que a tua obrigação!

E por ai fora.

Há um lado em mim que percebe. Afinal de contas, é na infância que se estabelecem as metas, a ambição, e a luta por aquilo que se quer e a capacidade de ultrapassar sempre os nossos limites.

Mas… tem que haver a noção de sucesso… mesmo que este esteja aquém do sucesso!

Talvez eu seja meio hippie, freak, ou tenha apenas a sorte de a minha filha ainda não ter aparecido em casa com 3 negativas (e uma tatuagem no rabo).

Talvez por isto eu ache que é importante as crianças explorarem bem o mundo para saborearem bem as hipóteses antes de saberem o que gostam ou não de fazer.

Talvez por isto eu ache que não se pode educar uma criança a estar sempre a medir o sitio onde chegou, a comparar-se a um sistema métrico que define quem é melhor ou pior na turma.

Lá está, ela ainda não chegou a casa com 3 negativas, uma tatuagem e 1 piercing.

E eu, quando cheguei com o piercing e a tatuagem, trazia uma papel a dizer que tinha media de 16.

Como mãe que prefiro eu? Que ela goste muito de algo. E que esse algo a faça muito feliz. Seja ou não reconhecido como “de bem” pela sociedade.

Ah! E também que a tatuagem não seja na cara.

PAI:

O sucesso escolar é uma merda com que temos que lidar.
Como os piolhos e as constipações ou as alergias.
O sucesso escolar é uma merda porque a escola também é, demasiadas vezes, uma merda.
A medida do “sucesso escolar” é uma das mais assustadoras manifestações do dark side da escola, pelo menos na minha experiência de pai de crianças com 10 anos.
Em primeira instância a escola devia ser um lugar onde se ensinam e se aprendem conteúdos e vivências.
Mas a escola é também um laboratório onde se fazem experiências com criancinhas, promovidas por gente pequenina e egocêntrica que, nos gabinetes do Ministério da Educação, brinca às reformas e aos currículos.
A escola também é um campo de batalha onde de digladiam os umbigos de umas criaturas sombrias que medem o eu próprio sucesso em função da importância dada à “sua” disciplina, como se a disciplina fosse “sua”, como se a escola fosse “sua”, como se os professores fossem instrumentos “seus” e como se os alunos fossem cobaias “suas”.
É evidente que ao longo da vida há tempo para tudo, incluindo para ser avaliado e procurar ter sucesso em função das possibilidades, potencialidades e aptidões de cada um.
Mas o que levará um ministro a decidir introduzir exames nacionais para crianças de 9/10 anos? Como é possível que a pasta da educação possa ser entregue a um mamífero que, olhando para uma criança de 9 anos, lhe ocorrem palavras como rigor ou exigência?
As minhas filhas tiveram uma extraordinária professora durante os 4 anos do ensino básico. Enquanto pode ela fomentou a criatividade, os projetos paralelos, as apresentações dinâmicas, as competências de cada um, enquanto ia dando a matéria curricular. Mas chegados ao 4º ano explicou-nos que tudo isso teria que acabar, que a criatividade e a aprendizagem da autonomia teriam que ser abolidas porque no fim do ano tinham exames nacionais e era necessário “preparar” as crianças. O início da manhã que era dedicado à “apresentação de produções” e muitas vezes era o melhor momento do dia foi eliminado para dar espaço a mais e mais horas de matemática.
As minhas filhas tiveram azar: o ministro delas era um cratino que não percebia que há diferenças entre miúdos de 9 ou de 16 anos.
No 4º ano delas quase todo o lado bom da escola foi abolido para que se instalasse a cratinice.
Se ficaram traumatizadas? Claro que não. Mas podiam ter vivido como crianças de 9 anos na altura em que tinham 9 anos e isso era muito mais importante do que o umbigo de suposto matemático do Sr. Ministro.
Ainda hoje me queixei a um professor porque estive a vasculhar o caderno de Educação Visual e Tecnológica delas e não vi desenhos, não vi criatividade, e em vez disso vi ângulos e circunferências feitas a compasso que me pareciam uma espécie de introdução à Geometria Descritiva.
O professor explicou-me que eram os “novos” currículos: como o ministro era matemático achou que o ensino para as artes devia ser aniquilado e essas cadeiras transformadas em extensões da sacro-santa matemática.
Hoje em dia, na disciplina a que chamávamos “desenho” as crianças estão virtualmente impedidas de desenhar porque um ministro achou que o que era importante para o “sucesso” das crianças era saber as gramagens do papel ou as medidas em milímetros das folhas A4 e A5 (isto é verdade, não é ironia).
Muitas das coisas que as minhas filhas têm que aprender são estúpidas e inúteis.
Exemplo: neste fim de semana as miúdas vieram pedir-me exemplos de animais que se reproduzam de forma assexuada. E eu, como não sabia, foi ao Google com elas. Sabem quantos animais se reproduzem de forma assexuada?
1
Sim, leram bem, há 1 (um) animal que se reproduz assim. E alguém no ministério achou que o mais indicado para crianças de 10 anos era o estudo de realidades tão específicas quanto isso.
Tu desculpa-me estrela do mar, eu gosto muito de ti. Mas para o estudo das ciências da natureza em crianças de 10 anos, mais valia que as minhas filhas estivessem num jardim a mexer em minhocas ou caracóis do que a olhar para um livro onde aprendem que existe um animal que se reproduz de forma assexuada.
Posto isto, eu quero que as minhas filhas tenham boas notas para que se sintam bem, recompensadas pelo seu esforço, integradas e realizadas “profissionalmente”.
E para que não se fechem portas.
Mas cá por dentro, e aqui que ninguém nos ouve, com estes programas e estes currículos, eu quero é que o “sucesso escolar” se lixe com “F” grande.

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