Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

A violência da maternidade

Crónica de 04 / 05 / 2016

Não me lixem. A maternidade é violenta.

É violenta para mim. E é também para ti se, como eu, foste educada para ser capaz de tudo.

Não o é ao inicio. Com as nossas capas de super mulher, velejamos pela gravidez como se nada fosse. Continuamos, aos olhos dos outros e até aos nossos, a ser capaz de tudo. A ter a capa da invencibilidade.

Mas um bichinho começa a nascer quando os nossos filhos nascem: rasgam-nos o corpo. Dilatam-nos. Fazem-nos sair leite das mamas, caramba!

E começamos a perceber que não somos invencíveis. Aquilo porque lutámos uma vida, a capa que envergámos desde novas, a ideia que éramos donas e senhoras do nosso nariz começa a desvanecer.

E porquê? Não é por mal. A violência é afinal fruto do maior amor da nossa vida: a nossa cria.

Mas é esse amor infinito. Esse amor maior que tudo. Que revela aquilo que escondemos uma vida: a nossa própria fragilidade.

E à nossa volta os homens estranham: caramba! Continua cheia de hormonas! Quando é que passa tudo e voltas a ser a mesma?

Acho que durante algum tempo também nos fazemos essa pergunta a nós próprias, ansiosas por regressar a um sitio mais familiar.

Mas o amor pela cria cresce. O vulcão cá dentro também. E um dia percebemos: nunca, mas nunca mais voltaremos a ser as mesmas.

Nunca mais conseguiremos sequer disfarçar que somos invencíveis. Mesmo que no dia-a-dia trabalhemos, limpemos, lavemos e esfreguemos!

Nunca mais seremos capazes de acreditar que podemos controlar o nosso mundo. Pois aquele ser pequeno e frágil mostra-nos que há previsibilidade. Não há garantias.

Há então um novo navegar com terra à vista.

Guiadas pelo amor desse ser pequeno.

Porque ele sim mostrou-nos o que é o verdadeiro amor.

E não podemos parar enquanto não nos amarmos assim a nós próprias.

Pois os nossos filhos merecem-nos tal qual queremos que eles se sintam.

Ou não?

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