Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Palmadas

Crónica de 19 / 05 / 2016

MÃE:

Deixem-me dizer-vos desde já que o que mais me dá alergia são crianças mal-educadas.

Claro que todas as crianças são exigentes de atenção, fazem birras, não gostam de partilhar brinquedos mas mal-educadas… do género de bater ou chamar nomes? epá, não. Não há desculpas!

Se me perguntarem: ah, então darias um estalado na tua filha se ela te chamasse um nome qualquer? Não. Claro que não. Nunca lhe daria um estado na cara.

Mas já lhe dei uns quantos na fraldas. E 1 ou 2 na mão.

Se eu queria que a minha filha fosse lá apenas com galinhas mansas? Queria.
Se eu queria que a minha filha me obedecesse sempre e fizesse o que eu queria com um simples olhar? Adorava.

Mas ser criança é desafiar. E ser pai é educar.

E educar é formar uma criança para que saiba ter respeito. Que saiba que há coisas que não pode fazer. E que saiba que há alguém que manda lá em casa: um adulto.

Passada a minha visão das coisas, vou-vos falar da minha história pessoal: eu era muito mais mansa antes de viver sozinha com ela. Existiam mais pessoas em casa e então eu podia ser a boa da fita e ela podia crescer medindo-se com várias pessoas além de mim.

Viver sozinha com um filho implica ser-se todas as pessoas que ela ama e, ocasionalmente, odeia.

Mas eu não tenho complexos nenhuns que ela de vez em quando não goste de mim porque eu não a deixei atirar a sopa contra a parede dando-lhe uma palmada no rabo.

Sei que não gosta de mim 2 minutos face a o que gosta de mim uma vida toda. Porque amar é saber quando já chega. E quem nos ama diz-nos quando devemos parar.

Além de todas as pessoas que convivem connosco e me adoram, claro, porque a minha filha não atira comida para as paredes das casas deles nem lhes dá estalos quando lá chega.

PAI:

A palmada é aquele tema tramado em que peço para que atentem no que eu digo mas não vejam o que faço.
Sim, volta e meia eu distribuo fruta. E não me orgulho especialmente disso.
Como é da praxe, refugio-me na quantidade porque com 4 filhos é mais fácil perder a paciência.
Em bom rigor, é no factor “paciência” que reside o busílis da questão.
Uma palmada é ativa, não é passiva. Uma palmada não é algo que se receba, é algo que se dá (não andam por aí a cair palmadas do céu…).

Dar ou não dar uma palmada é um acto discricionário meu; sou eu quem dá a palmada e não eles que a recebem. Se eu não der eles nunca recebem.

Mesmo quando eu acho que foi merecida ou que eles estavam a pedir, sou eu o agente ativo que dá a palmada.

A verdade é que tenho consciência disso mas nem todos os dias tenho forças (leia-se paciência) para lutar contra a tentação.

Adorava ser um pai espetacular, paciente, tolerante e sempre positivo. Mas não sou.
Como é evidente, cada pai encontrará as suas desculpas.

Eu tenho 4 filhos e argumento que é preciso agir depressa porque o mau comportamento é contagioso e se um dos miúdos começa a passar-se, facilmente a casa entra numa espiral caótica.
Mas quem só tem um filho pode sempre dizer “ai o meu é mesmo terrível” e usar esse facto completamente subjetivo para se sentir menos mal com as palmadas que dá.

Eu sei que recorro mais à palmada nos dias em que estou mais nervoso ou chateado ou o que seja. Às vezes basta uma ou outra noite mal dormida para o nível de paciência descer para “abaixo de palmada”.
Se eu estou descompensado, eles acabam por pagar.

No fundo estou convencido que (quase) todos damos palmadas e sabemos que não o devíamos fazer.
O que não sabemos é avaliar as consequências dessas palmadas na autoestima dos miúdos – não sabemos que preço é que eles vão pagar pela nossa falta de paciência.
Há miúdos que vão reagir à nossa violência sem grandes dramas mas há outros que podem assimilar essa inferioridade que lhes impomos e sofrer com isso.
Nós não sabemos aferir o mal que potencialmente lhes estamos a fazer.
E isso é assustador…

Enquanto me lembrar do que acabei de escrever vou MESMO tentar não levantar a mão. A sério.
Os putos não podem continuar a pagar por mim, pelo meu stress, pela minha falta de paciência, pelas horas sempre a correr, pela minha pressa para despachar tudo porque tenho 80 peúgas para dobrar e a cozinha para arranjar ou porque quis ficar mais 10 minutos na cama e agora tem que ser tudo a toque de caixa para chegarmos a horas à escola.

Os putos não pediram para nascer.

Se eu estou na merda, eu que me oriente – não é justo que sejam eles a pagar por isso.
Os miúdos merecem ter um pai melhor do que aquele que têm.
Compete-me apenas a mim transformar-me no pai que gostava que eles tivessem…

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