Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2018

Os filhos limitam-nos a liberdade?

Crónica de 24 / 05 / 2016

MÃE:

Antes de ser mãe eu adorava vaguear por centros comerciais. Ora porque era o único sitio onde conseguia comprar comida às 10 da noite quando chegava do trabalho, ora porque era o sitio onde eu desanuviava do trabalho a ver as montras.

Era assim uma especie de meditação: lentamente, sem destino ou pressa, eu andava com muita calma por ali.

Demorei um tempo a voltar a um centro comercial por causa de achar que a Clara era muito pequena e que eu “havia de emagrecer” antes de voltar a comprar roupa.

O tempo passou, e, quando finalmente tentei levar a Clara a um centro comercial ela já andava. Desculpem, corria.

E eu, que na memória associava aquilo tudo a uma experiência “zen” acho que a única coisa que vi foi o asfalto lá do sitio, enquanto corria atras dela.

E podia-vos contar a mesma história para restaurantes: 6ª feira levar uma criança para restaurantes? AHAHAHAHAHAH (Ah pois, é que 6ª feira ao meio dia nem a mim me apetece!)

– discotecas?
– Concertos?
– Cinemas?
– Acordar ao meio dia de sábado?

Nada contra – e até aceito fazer amizade! – com quem consegue pagar babysitters, ou deixar os filhos em casa da família enquanto vai passear ou de férias. Mas eu, sem dinheiro e sem família próxima, e chegada à minha filha prefiro assumir:

– liberdade? perdi-a toda, sejamos sinceros. Tivesse eu mais filhos e acho que já me tinha convertido a qualquer religião que incluisse viver em comunidade só para distribuir o mal pelas aldeias.

Mas deixem-me que vos diga que, estou apenas a juntar uns trocos para quando voltar a ter liberdade, ser das velhas mais malucas que já se viu em cruzeiros.

PAI:

A liberdade é uma ideia tão abrangente que é difícil começar.
Interessa-me sobretudo o lado mais absolutamente radical da liberdade mas sei que quando se fala de filhos se resvala quase sempre para as liberdadezinhas do quotidiano.
Em casa dos meus pais sempre tive total autonomia, sempre me deixaram fazer tudo o que quisesse desde que fosse cumprindo as minhas obrigações escolares. Sempre tive total liberdade para fazer o que quisesse (fosse sair à noite e chegar no dia seguinte com o fígado do avesso ou fazer o inter-rail) desde que tivesse dinheiro para isso.
Mesmo assim saí de casa mais cedo do que é costume porque queria ir morar com o meu melhor amigo para podermos criar a “república” onde nunca vivemos (por não termos estudado em Coimbra). Queria mais liberdade e mais autonomia e vivi-a alegremente. Tive momentos em que saía 7 noites por semana porque me apetecia e constituí família quando achei que era o momento – fui livre.

Um dia, depois de saber que ia ser pai de gémeas, fui ao aeroporto buscar um amigo americano e na boleia para a empresa aproveitei para lhe contar a novidade. Nessa altura ainda estava algo apreensivo pela liberdade que sabia que ia perder e verbalizei-o.
Disse ao meu amigo que já tinha percebido que se iam acabar as idas ao cinema sempre que apetece, ao que ele respondeu que isso não era importante porque eu ia ter muito menos interesse em ir ao cinema.
Ele era pai e é evidente que tinha razão. Não é essa a liberdade que os filhos nos tiram.

É também evidente que ter 4 filhos num país que quase criminaliza a família, para um pelintra como eu, quase não deixa folga financeira para o que não seja a sobrevivência.
Acabaram-se as viagens nas férias, os fins-de-semana fora, as jantaradas, as borgas, as noitadas, essas coisas todas. Mas eu não acho que tenha verdadeiramente perdido liberdade com isso porque também me vão apetecendo menos esses programas.
É claro que eu gostaria de viajar com os miúdos, amava poder levá-los à Disney; mas em bom rigor não perdi liberdade porque se não os tivesse tido também não teria vontade de ir à Disney – simples…

Onde se perde a liberdade é nas opções radicais, não é nas comezinhas do dia-a-dia, tipo… não se vai ao Ramiro, janta-se em casa.
Eu adoro o meu emprego. Gosto do que faço e de com quem o faço – nisso sou um enorme privilegiado. Mas se não fosse o caso, teria que suportar quase tudo para manter o emprego porque um pai de 4 não se pode dar ao luxo de ter estados de alma que possam implicar perdas de rendimento em casa.
Um pai de 4 não pode despedir-se porque o emprego é chato ou o chefe é uma besta que o humilha diariamente.
Um pai de 4 pode perder a liberdade de exigir dignidade porque tem bocas para alimentar num País que acha que ter um filho é um luxo que só devia ser reservado a quem pode. Um pai de 4 engole em seco e aguenta; perde a liberdade de dizer “não aguento mais”.
E a perda vais mais longe e mais fundo.
A liberdade mais radical que temos, a de continuarmos vivos, perdemo-la também quando somos pais. Perdemos a liberdade de morrer se assim o entendermos.
Há duas coisas que todos os humanos têm em comum: a biologia (já dizia o Sting) e a possibilidade de se suicidarem. Em termos comportamentais, a única coisa que une todos os habitantes do planeta é a liberdade de porem fim à vida.

Isto pode parecer absolutamente irrelevante para a maioria das pessoas, muitas nunca terão sequer pensado nisso, mas para mim não é. Durante toda a minha vida eu tive a noção de que estar cá era também um acto voluntário – eu poderia sempre por fim a isto se assim o entendesse.
Para mim essa é a suprema liberdade: decidir se continuo vivo ou se digo que não. E essa liberdade perdi-a.
Se amanhã eu não quiser mais, não posso fazer como o Hemingway e ir-me embora – tenho que encolher os ombros e continuar, feliz ou infeliz, realizado ou desfeito, é indiferente.
Deixei de depender de mim, deixei de ter à minha disposição esse último recurso – a minha própria bomba atómica.
Nisso é que eu deixei de ser livre.
E não é coisa pouca.

Mais Crónicas:

-->