Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

O que muda depois de sermos pais

Crónica de 01 / 06 / 2016

MÃE:

Agora que penso nisso, o titulo foi mal escolhido: era muito mais fácil falar sobre o que não muda! É que mudar… mudar, muda tudo! Ora, listemos só para ser exaustivos:

  1. O nosso corpo
    1. A relação com o nosso corpo
    2. As horas de sono
    3. O sono que temos
    4. O tempo livre
    5. O que fazemos com o pouco tempo livre que temos
    6. As nódoas que temos na roupa
    7. O tempo que temos para namorar
    8. A vontade que temos para namorar
    9. A possibilidade de ler um livro
    10. Os sitios paradisiacos que podemos visitar em férias
    11. A comida que temos no frigorifico
    12. A bebida que (não) temos no frigorifico
    13. As aplicações que temos no telemóvel
    14. A decoração que temos em casa
    15. A desarrumação que temos em casa com os objectos que sobram e os brinquedos que entram
    16. As conversas que temos socialmente (e que juramos que nunca vamos ter)
    17. As fotos que postamos nas redes sociais
    18. As frases que postamos e seguimos nas redes sociais
    19. As musicas que sabemos de cor
    20. Os desenhos que sabemos fazer (mesmo que mal e imperceptíveis)
    21. O dinheiro que temos na conta bancária
    22. O que fazemos com o pouco dinheiro que temos na conta bancária
    23. A relação com o cocó alheio
    24. O que temos num saco de praia
    25. As horas a que passamos a frequentar a praia
    26. A areia que trazemos da praia para casa
    27. O nosso conceito de lingerie
    28. O nosso conceito de roupa lavada (tem 3 nódoas? está óptima!)
    29. A nossa ideia de quão fofos são os bebés (ahahahahah, viu, ninguém fala sobre isto :p)

Mas, não fosse eu uma rapariga que está a tirar um curso sobre desenvolvimento pessoal, deixem-me que vos diga algo que muda, e ainda bem: muda o nosso alinhamento com o que realmente importa na vida.

Porque não, não somos nós, nem o nosso umbigo, nem a nossa capacidade de sermos reconhecidos pelo chefe ou pelos colegas ou pela amiga que tem inveja da nossa roupa.

A única coisa que realmente interessa nesta vida é sabermos amar e ser amados. Sempre, e não só quando nos apetece. Todos os dias, e não só quando estamos bem-dispostos.

Que não vos pareça fácil. É material para escrever e vender toda uma enciclopédia em vários volumes.

PAI:

O que é que muda em nós depois de sermos pais?
Não muda nada.
Quer dizer… muda qualquer coisa mas como costumo ler e ouvir pessoas que dizem que “muda tudo”, eu gosto de dizer que não muda nada só para contrariar.

A verdade é que, infelizmente, naquilo que é mesmo importante, ter filhos não nos muda, ou muda-nos muito pouco.
Os filhos são apenas uma espécie de acelerador de partículas, tornam-nos mais intensos nas nossas idiossincrasias.
Mas é quase só isso.
Acho que a convicção generalizada é de que mudamos imenso depois de sermos pais, mas essa ideia ocorre para nos sintamos mais confortados com o passo que demos.
Criamos essa convicção porque, como diz o chavão, é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma.
Mudamos naquilo que interessa pouco.
Podemos ganhar umas rugas, umas ralações, umas dores de cabeça, saímos menos, essas coisas todas. Mas isso ocorreria sempre pelo mero decurso do tempo: eu não levaria aos 60 anos a vida que levava aos 20 da mesma forma que não teria o mesmo corpo, e essas mudanças ocorreriam mesmo que não tivesse sido pai.
Naquilo que é mesmo importante, os nossos valores e a nossa forma de pensar e de viver a vida, os filhos não nos mudam.
Sei que há pessoas que mudam radicalmente quando apanham um susto grande ou passam por uma experiência radical em que encaram a morte de frente.
Mas como ter filhos é a coisa mais normal do mundo, isso não nos faz mudar.

Um tipo briguento, daqueles que desata à pancada só porque no bar alguém olhou para a sua namorada, não se vai transformar num anjinho apenas porque foi pai. Pelo contrário, provavelmente o filho é só mais uma razão para andar à pancada…
Um egoísta não fica generoso.
Um violento não fica pacífico.
Uma pessoa má não fica boa.

Alguém que é naturalmente generoso provavelmente fica ainda mais altruísta depois de ser pai. Fica mais sensível e com mais vontade de dar.
Mas alguém que é naturalmente conflituoso provavelmente fica ainda mais briguento depois de ser pai. Fica mais exposto e sente-se mais ameaçado.
Alguém que é naturalmente egoísta provavelmente fica ainda mais ganancioso depois de ser pai. Fica mais receoso e com menos vontade de partilhar.

Se pensarem bem, (quase) todas as guerras, crises, enfim… todos os ódios e egoísmos, foram e são instigados por pessoas com filhos.

Se os filhos nos mudassem, se os filhos nos transformassem em pessoas melhores, o mundo era um sítio do caraças.
Infelizmente os filhos não nos mudam.
E é pena.

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