Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Asperger na Infância II

Crónica de 04 / 06 / 2016

A capacidade dele, de compreender e expor aquilo que vê, de explicar de maneira tão detalhada, é um sinal de alerta. Assim, como o não responder quando é chamado, o hesitar em aproximar-se dos outros. Após, seguirmos para consultas com dois pedopsiquiatras, mais um pediatra, um neuropediatra, e dois pediatras de desenvolvimento que não o conheciam, após testes, consultas e mais testes, todos chegavam ao mesmo!

E todos diziam o mesmo: “Por ter sido sempre tão natural, é que ele fala, ele anda, ele é independente. Foi encarando o que lhe aparecia, e como era desafiado, nunca ficou para trás.” E quem acaba de ouvir: AUTISMO não quer nem saber mais nada! Quase me dava uma coisinha má, pensei logo no pior, e que isto, e que aquilo…

E depois parei para pensar, que se aceitar, é meio caminho para tratar. Aos 3 anos, entre terapias, consultas, e continuação de mais testes, é fechado o diagnóstico e é dito, que para ver como ele reage em exposição constante com outras crianças, o melhor, era ele entrar na pré. Concordei. O primeiro dia, correu mal, pois chorou que se matou.

Os dias seguintes, correram bem. Até que, se denotou por parte dele, a teima na rotina especifica, entrar, sentar na mesma cadeira, no mesmo lugar, ao lado dos mesmos, sair à mesma hora para o refeitório, etc, e quando não acontecia isso, ele não sabia lidar com os seus próprios sentimentos, então frustrava-se e beliscava os outros. Sem intenção, pois não compreendia a dor dos outros. Não sentia empatia, pelos outros. 3 anos, 4 meses. E sabe ver as horas num relógio analógico, memoriza padrões mais facilmente do que memorizo a lista das compras. Escreve o nome, e dá a entender que sabe ler através da memória, reconhece as palavras, ou uma história que lhe foi contada e reproduz a mesma, parecendo que está mesmo a ler.

Não consegue saltar com os dois pés juntos, e corre em ritmo desconcertado. Evita contacto visual, e quando é obrigado a fazê-lo recorre a tiques, como piscar os olhos, mexer na orelha, coçar o pescoço ou mexer no polegar como forma de me distrair dos olhos dele. Quando a conversa, tem aspeto negativo como “Porque fizeste aquilo? Não se faz.” Ou não responde, ou apenas diz “não sei, não sei”, sabe os meses do ano, as estações e em que dias começam. Faz contas, soma, subtrai, multiplica e divide. Sabe os variados tons das cores, e marcas de carros. Quando frustrado, isola-se, e não conversa com ninguém, se insistir começa a piscar os olhos, e a coçar a mão. Os comboios, fascinam-no, começou no Thomas and Friends e agora, pede para ver vídeos da montagem de um comboio.

E cá chegamos, aos 4 anos! O S, aos 4 anos…. É ter paciência, para lhe responder às milhentas perguntas que muitas vezes só sei responder se recorrer ao Google. Sabe escrever, diversas palavras sem ajuda, lê algumas sem recorrer à memória fazendo apenas uso das junções. Já sabe lidar com os seus sentimentos, e adequar as expressões faciais às situações. É educado. Gosta de ler, de puzzles, de ouvir música com os fones e ficar no seu mundo. Adora basket! E brincar com os amigos. Ou seja, é uma criança normal. Entre escola e terapias, é uma criança totalmente normal.

Nós pais, é que mudamos, pois temos de encontrar constantemente maneiras de os mantermos interessados, de os incentivarmos, de explorarmos aquelas cabecinhas que nunca param e querem sempre mais e mais. Se não existisse no meio deste texto a palavra Autismo, quem o lesse diria apenas que é uma criança muito inteligente. O que mais ouço quando digo a alguém, é “Nem parece ter o problema que tem. Pensava que os autistas nem falavam”. Não. Errado. Há autistas que não falam, há. Mas comunicam de outras maneiras.

Viver com um Aspie, é viver com um génio dentro de casa, é não saber apesar da rotina estabelecida se o dia irá correr bem ou não, é pensar que hoje ele não me vai dar um abraço nem um beijinho, ele acorda de manhã e dá imensos abraços e beijinhos. Ignorar sinais, que pairam na nossa cabeça e que depois achamos que não é nada, não é bom. Por descargo de consciência, não custa nada abordar o médico, ou o pediatra na próxima consulta. Pode ser, como pode não ser. O melhor é ter a certeza!

O autismo deve ser desmistificado, deve ser algo que se possa falar abertamente, facilmente, até para ajudarmos os nossos. A maioria, fala, mas há muitos que não falam e no entanto comunicam das mais variadas formas. Outros, são diagnosticados com uma inteligência média, mas na oralidade são excelentes. Alguns, não conseguem compreender o mundo que os rodeia, mas a inteligência é acima da média. Nenhum é igual a outro, e cabe a nós pais, junto com os profissionais que os acompanham, de os ajudarmos a ultrapassar as dificuldades e a equilibrar as áreas. ☺

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