Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

Temos preferência no sexo dos filhos?

Crónica de 21 / 06 / 2016

Vou ser muito sincera: este sempre foi um tema que eu evitei.

Evitei porque eu própria não queria pensar nisso, evitei porque acho que quando se tem preferência, pode-se ter desilusões. E esse não é um sentimento que eu sinta que deva estar associado à maternidade, pelo menos não no que toca ao sexo do filho.

Verdade seja dita, acho que amamos incondicionalmente tudo o que nos calhar na rifa, não é? :)

Agora, acho que pode haver “karma”. Sim, karma. Por exemplo, eu sempre achei que ia ter uma filha. Seria mais fácil, talvez, se tivesse tido um filho, mas sempre achei que ia ter uma filha. Achei-o porque sou filha única da minha mãe, e viver uma vida inteira numa relação mãe-filha não é fácil, já Freud explicou em mil oitocentos e troca o passo!

O meu karma era provar que pode ser fácil. Ou mais fácil do que foi para mim. A ver vamos, o que me guarda o arma :)

A minha teoria tem sido provada em várias situações próximas: o sexo dos filhos não é o que preferimos, aquele filho ou filha e o que precisamos para crescer. Seja com pipi ou pilinha. E, muitas vezes, o que preferimos era o que tornava a nossa vida mais fácil, e não o que nos fazia crescer mais como seres humanos. Pelo que, o que vem, não tem nada a ver com o que preferimos mas o que precisamos. E os filhos acabam por ser uma extensão de nós, na sua própria essência que não comandamos.

Agora eu posso vir a ter mais filhos. E gostava. E a partir dai? O karma ganha? Ou tenho um de cada? ou tenho 3 ou 4 gajas a atazanar-me o juízo? :p

Não sei… até porque a única coisa que sei, hoje em dia é que, na vida, prevemos muito pouco.

Ainda hoje estava na praia e vi várias crianças com deficiências. A crescer, a serem crianças, com pais e mães que podem até ter preferido pipi ou pilinha mas que, certamente, trocavam isso tudo por um filho sem dificuldades físicas.

Por isso… a unica coisa que, se pudesse escolher preferia, era que nenhuma criança nascesse amputada de possibilidades de ser feliz.

O resto é tão relevante como o sexo dos anjos.

PAI:

Confesso que no início, mesmo no início, foi relevante.
Mas foi porque eu era parvo, não porque fosse de facto importante.
Quando soube que ia ser pai de gémeos, quis ter rapazes e até lhes escolhi os nomes: seriam o António e o Vicente, os dois santos da mitologia alfacinha.
Convenci-me que eram rapazes a afeiçoei-me à ideia e aos nomes que eu achava geniais.

No dia da ecografia que confirmou que eram miúdas fiquei um bocado chateado durante uns minutos (sim, eu era ainda mais imbecil do que sou agora).
Felizmente a coisa passou depressa e abracei o futuro.
Um dos problemas chatos é a pressão social com o sexo das crianças.
Mesmo que não liguemos temos que levar com as bocas e muitas vezes associam-nos um descontentamento que não existe de todo.
E escabrosamente (ou talvez não) são muitas vezes as mulheres as porta-vozes da desvalorização do estatuto das raparigas.
A situação mais absurda por que passei aconteceu num supermercado – a senhora da caixa que não nos conhecia de lado nenhum olhou para as minhas filhas, perguntou se eram gémeas, eu confirmei, e ela comentou:
“- Ai que pena serem duas meninas, se tivesse tido um rapaz ficava já com o casalinho.”
Eu não pude mandar a gaja para a puta que a pariu – parecendo que não, estava com as minhas filhas. Mas apeteceu-me mandá-la parir um hipopótamo mesmo sem epidural ou algo parecido.
A verdade é que fui muito feliz com duas miúdas e quando decidimos ter um 3º filho já me estava nas tintas para o sexo da criatura.
Mas, infelizmente, foi-me sendo colocada uma pressão que eu não sentia; sempre que alguém sabia que vinha aí um terceiro filho, assumiam que eu tinha ido “à procura do rapaz”. Mesmo as minhas adoradas tias, que eu amo tanto, deixavam escapar esse preconceito.
Como se não fosse natural que eu quisesse ter mais um filho só por ter mais um filho, sem ir à procura de nada mais para além da alegria de ter… mais um filho.
Quando soube que vinha aí o Zé fiquei feliz e aliviado – ao ter um miúdo ficava com mais biodiversidade lá em casa, e pelo menos agora deixavam de me moer o juízo por causa do “rapaz”.
Mas maçava-me o sorriso condescendente de quem achava que eu tinha tido sorte porque finalmente me tinha saído um rapaz, como se os filhos fossem uma lotaria e o rapaz fosse o bilhete premiado.
Para acabar com estas merdas até foi bom ter um 4º filho – pelo menos desta vez não havia pressão nenhuma – é que apesar de eu me estar nas tintas, a pressão existe e é como um vírus, uma mensagem subliminar que passa para nós e para as crianças; e pode minar.
De cada vez que alguém assumia que eu precisava de ter um rapaz estava a passar a mensagem sexista às minhas filhas de que ter raparigas não é suficiente.
E eu não queria que as gémeas ficassem no subconsciente a pensar que eu não tinha ficado completamente satisfeito com o facto de elas serem raparigas e que por causa disso tinha sentido a necessidade de ter um rapaz.
Aliás, quando se tornou público que vinha aí uma 4ª criança, a pergunta era: “mas para quê se já tiveste o rapaz?”
Ou então a sacramental… “- 4 filhos? Mas tu nem és católico…”
A sério???
Não dá para ter filhos neste País só porque me apetece?
Bom, com a chegada da Joana tornou-se claro para toda a gente que eu só queria ter filhos, ponto.
Mas às vezes ainda penso: se o Zé tivesse sido uma miúda, muita gente iria pensar que eu tinha ido ao 3º e ao 4º filho “à procura do rapaz”.
E o problema não é o que os outros pensam de mim, o problema é que iam passar essa mensagem subliminar às miúdas e iam assumir que eu não me sentia completo.
E porra, como isso é estúpido…

Mais Crónicas:

-->