Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

ROADTRIP 1: Essa cena marada chamada Liberdade

Crónica de 04 / 07 / 2016

Na véspera de partir só me apetecia chorar. Não aquele choro de fundo, mas aquele choro cá de cima, aquele choro de pensares: e agora?

A verdade é que eu até tinha um roteiro, um roteiro de sítios que até conhecia. Mas eu nunca tinha viajado numa auto-caravana! E para que serve um roteiro quando podes fazer o que tu quiseres?!

As minhas lágrimas eram de ansiedade: e agora? e agora que tenho toda esta liberdade? Que faço com ela?

Não sei se é sempre mas sei que é quase sempre: nós somos pessoas aquém de quem gostávamos de ser por milhares de razões. Não fazemos porque não temos tempo. Ou dinheiro. Não conseguimos porque não conseguimos. Ou porque temos outras coisas para fazer. Não avançamos porque não temos condições. Ou temos tanta outra coisa importante!

Nós somos pessoas aquém de quem gostávamos de ser por milhares de razões. Nenhuma delas somos nós. Ou assim pensamos.

Esta liberdade de parar onde quisesse, a que horas quisesse, para comer o que quisesse, podendo por a miúda a dormir quando ela quisesse assustou-me: agora que posso tudo o que quero sei ser feliz? Sei ser responsável com a minha própria liberdade?

A resposta veio assim que assentei arraiais na primeira praia e fiz o que me apeteceu: fui dar um mergulho. A resposta era: sim, eu sei.

Algumas pessoas talvez pensem: “dah, também eu se for de férias estou feliz.”

Essas pessoas não são da minha estirpe: eu sou de um estirpe que gosta de perder tudo o que é superficial para olhar só para o que importa: a alma.

E foi na ausência de tudo que me reencontrei. Foi na ausência dos outros que perdi aquilo que muitas vezes nos persegue: a culpa.

Agora eu tinha um propósito: crescer. E se na ausência dos outros eu não sinto culpa, então eu não tenho culpa de nada. Eu estou bem. Eu estou fixe. Eu sou feliz.

E não vos quero contar tudo já, mas quero-vos contar que esse sentimento ficou cá: sinto-me pronta para ser eu, dizendo o que penso, fazendo o que sinto.

Sinto-me pronta para que a viagem tenha apenas começado.

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