Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Homens, Mulheres e Vai à merda

Crónica de 08 / 08 / 2016

Cheguei a casa, na passada 5ª feira e, depois de por a Clara a dormir pus-me a ler.

Dei de caras com um artigo que dizia "até os mais tolerantes devem mandar à merda de vez em quando."

Aquilo caiu-me que nem ginjas. Peguei no telefone e mandei uma pessoa, que tinha feito algo que me caiu mal, à merda.

Já tinha sido cordial. Já tinha dito que não tinha gostado da atitude. Que era impróprio. Que não se faz. mas eu continuava com um nó na garganta e aquele artigo foi tudo o que precisava: de deixar de ser cordial e soltar cá para fora o que sentia. Fiquei logo boa!

No dia seguinte saio de casa e está um homem estacionado nos lugares de residentes. "Desculpe, vai deixar ai o carro?" Veio para cima de mim, com uma chave de fendas gigante.

Fiquei calma, afinal, a minha filha estava ali, meio assustada mas sem perceber, agarrada às minhas pernas.

"Está aqui a minha filha" disse "Tenha atenção ao que vai fazer ou dizer."

Afastou-se, a bracejar, ainda de chave de fendas no ar. Chegou um vizinho homem e, ai sim, afastou-se de vez.

A ligação entre os 2 episódios só me fez sentido mais tarde, quando digeri porque é que os homens podem partir para cima de uma mulher com violência para resolver os problemas enquanto nós não.

Tudo começa na origem, na fonte: em nós. Nós mulheres somos mais cordiais, mais amigas da paz.

Nós maquilhamos as zangas para os nossos filhos não nos ouvirem gritar.

Nós escondemos as lágrimas para ninguém se preocupar connosco.

Às vezes até ao limite, ao limite que, por exemplo, eu estava: a rir, quando o que nos apetece mesmo é mandar aquele alguém à merda. Tantas pessoas que quis mandar na vida e, em vez disso, fiz piadas pseudo-inteligentes!

Nós mulheres somos diferentes. Somos mais frágeis e pequenas que a maioria dos homens, por isso a violência não é uma opção também por sobrevivência.

Mas uma coisa vos garanto: não posso evitar que a minha filha venha a sentir medo, apesar de ser assustador saber que vai crescer num mundo onde a violência é uma opção.

Mas uma coisa eu posso evitar: posso evitar que ela descubra, como eu, tão tarde na vida o quão é bom poder mandar algo à merda.

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